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O ‘filme de psicanálise’ oficial de Hitchcock

26 de outubro de 2021

A psicanálise no filme estrelado por Ingrid Bergman e Gregory Peck é a ferramenta para a solução de um crime

Quando Fala o Coração, em cartaz nesta terça-feira no Cine Clube “Pipoca & Bala Pipper”, em Passos, é um filme bem moderno de Alfred Hitchcock, para a época de seu lançamento. Primeiro, porque traz para as telas o ainda questionado tema da psicanálise. Além disso, coloca a personagem principal, interpretada por Ingrid Bergman, como uma profissional respeitada em um meio médico altamente masculinizado. Por fim, ainda introduz a arte surrealista de Salvador Dali na famosa sequência do sonho.

Talvez por isso o filme possa ser melhor apreciado hoje. Principalmente quanto à simpatia do público em relação à personagem de Ingrid Bergman, uma mulher independente demais para a conservadora sociedade americana. Com certeza, o fato de ela ir atrás do recém-chegado novo diretor do manicômio onde trabalha logo após tê-lo conhecido deve ter provocado antipatia pela personagem.

Aliás, a própria atriz sofreria com esse moralismo exagerado. Afinal, sua popularidade declinaria logo no ano seguinte, quando teve um caso com o diretor Roberto Rossellini durante as filmagens de Stromboli.

Na instituição de tratamento mental onde a Dra. Constance (Ingrid Bergman) trabalha, os funcionários residem no local. Então, um novo diretor, Dr. Edwardes (Gregory Peck), chega para substituir o antigo, que será forçado a se aposentar. Apesar da atração que Constance logo sente por Edwardes, ela nota que algo está estranho.

Ele sofre tonturas quando vê linhas paralelas, e sua assinatura não coincide com uma antiga registrada em um dos seus livros. Mesmo descobrindo que ele pode ter matado o verdadeiro Edwardes, ela resolve ajudá-lo a descobrir o que aconteceu. Dr. Edwardes, na verdade John Ballantyne, sofre por um trauma de infância e Constance precisa trata-lo. Dessa forma, poderá descobrir a verdade e desvendar o mistério sobre o desaparecimento do verdadeiro diretor.

Em Quando Fala o Coração, Hitchcock sentiu a necessidade de inserir explicações básicas sobre psicanálise no roteiro, o que retarda o ritmo do filme, que apresenta diálogos em demasia. Além disso, subestima a inteligência do espectador ao mostrar duas vezes o conteúdo da carta que o Dr. Edwardes escreve para a Dra. Constance antes de ir embora do manicômio.

Por outro lado, acerta ao criar o suspense sobre essa mesma carta, quando Constance teme que os outros colegas a encontrem. Hitchcock consegue acelerar o ritmo do filme na colagem de cenas que relata rapidamente o processo de aprisionamento de Ballantyne, mostrando apenas a reação de Constance.

A estória é muito boa e o mistério não é fácil de se desvendar. Além disso, a cena que encerra a descoberta é genial, com uma inteligente sacada para mostrar um suicídio. No entanto, o maior acerto é que a bela sequência do sonho criada por Dali não é gratuita. Afinal, ela é essencial para Constance concluir o que aconteceu. (Leitura Fílmica)

QUANDO FALA O CORAÇÃO (Spellbound) — EUA, 1945. Direção: Alfred Hitchcock, William Cameron Menzies. Roteiro: Ben Hecht, Angus MacPhail. Elenco: Ingrid Bergman, Gregory Peck, Michael Chekhov, Leo G. Carroll, Rhonda Fleming, John Emery, Norman Lloyd, Bill Goodwin, Steven Geray. Duração: 111 min. Cine Clube Pipoca & Bala Pipper – Anfiteatro da Casa da Cultura, terça, 26 de outubro, 20 hs. Entrada gratuita.