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O filme da canção de Renato Russo

Por Neuza Barbosa / CineWeb

18 de fevereiro de 2022

Longa “Eduardo e Mônica” traz os atores Gabriel Leone e Alice Braga em um improvável casal./ Foto: Reprodução.

A famosa canção de Renato Russo, de 1986, fornece inspiração ao diretor brasiliense René Sampaio para o filme Eduardo e Mônica (em cartaz no Cine Roxy, em Passos), um romance da era do telefone fixo, do orelhão e da câmera analógica. É a segunda vez que Sampaio transpõe para o cinema uma obra do vocalista do Legião Urbana, falecido em 1996, a exemplo de seu filme anterior, Faroeste Caboclo (2013).

Muita gente conhece a canção e as diferenças que atrapalham a paixão entre o adolescente Eduardo (Gabriel Leone), que tem 16 anos e faz cursinho pré-vestibular, e Mônica (Alice Braga), uma residente de Medicina. Um dos desafios para obter um filme que alcança duas horas foi preencher as lacunas da canção, dando consistência aos personagens, criando as figuras de parentes, amigos e entorno, a partir do roteiro de Matheus Souza. Outra proeza, esta da direção de arte de Tiago Marques e da fotografia de Gustavo Habda, foi revestir a Brasília em que se ambienta a história com os tons dos anos 1980.

O engenho está, no entanto, na entrega e na química obtida entre os dois atores principais, a ponto de se esquecer completamente que são tão mais velhos, na vida real, do que seus personagens. Intérpretes experientes, Alice e Gabriel transmitem perfeitamente as emoções e os impasses deste relacionamento atribulado, que tem que ser construído e reconstruído a cada passo e corre, a todo momento, o risco de desabar. É um amor romântico, sim, mas de um romantismo impregnado de realismo, verdade e de um necessário equilíbrio do jogo de poder que não dá vantagem a ninguém – por mais que a maior experiência de Mônica lhe permita uma dominância inicial.

Não se trata, igualmente, de personagens idealizados, como costuma acontecer na média dos romances do cinema. Não existe aqui aquele joguinho previsível, deflagrado nas primeiras cenas, que progride, interrompe-se com alguns conflitos para ser magicamente resolvido na etapa final. Fiel ao espírito da música, o filme explora o choque entre a inexperiência de Eduardo, apesar de seu entusiasmo em queimar etapas para acompanhar a amada, e a determinação de Mônica em manter sua independência, valores, espaços, amigos, modo de vida.

Como o enredo vai muito além da música, esses personagens secundários na vida dos protagonistas permitem que se delineie melhor a personalidade de cada um. No caso de Eduardo, um avô, Bira (Otávio Augusto), tão carinhoso quanto reacionário politicamente. No caso de Mônica, mãe (Juliana Carneiro da Cunha) e irmã (Bruna Spínola) com quem ela se confronta e um grupo de amigos em franca oposição a Eduardo.

Se todos esses conflitos são esperados, há um genuíno suspense sobre como essa história com tantos adendos em relação à canção original vai acabar. Afinal, o filme vai além dela e não tem obrigação de ser exatamente igual. A maneira como essas emoções são devidamente instigadas nos espectadores comprovam os inúmeros acertos da direção aqui. Um grande mérito, aliás. Não é nada fácil fazer um filme de amor que não seja previsível, banal ou amargo e sugue o fundo da essência da paixão com tanta energia, quanto Eduardo e Mônica faz.

EDUARDO E MÔNICA (Eduardo e Mônica). Brasil, 2020. Gênero: Drama, Romance. Direção: René Sampaio. Elenco: Alice Braga, Gabriel Leone, Otávio Augusto, Juliana Carneiro da Cunha. Cine Roxy, em Passos, 21h00