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    14/01/2020 09h12 - Atualizado em 14/01/2020

    Dia a Dia: A história de uma coruja

    Décio M. Cançado

     Em alguns países da Europa, há pessoas que se dedicam a atividades, até certo, ponto estranhas para nós. Dona Bete é uma delas. É reabilitadora de aves, ou seja, toma conta das que estão feridas, como corujas e falcões, até elas serem capazes de voar de novo. Todos os dias, vejo-a misturar medicamentos, distribuir comida e limpar as grandes gaiolas que tem no pátio. Por mais cansada ou ocupada que esteja, ela sempre tem tempo para falar comigo sobre os pássaros.

     

     O meu maior desejo era poder andar para ajudá-la nas tarefas, em vez de ficar apenas observando. Mas, sou paraplégico, não consigo andar sem a cadeira de rodas ou o andador.

     

     Certo dia, Dona Bete mostrou-me uma coruja-das-torres, que havia quebrado uma das asas. Mesmo com a asa numa tala, a coruja tenta escapar debatendo-se contra as paredes da caixa onde foi colocada. – “Vai ter de ficar aqui até a asa sarar” - diz Dona Bete. – “Que nome você acha que devemos lhe dar”? — pergunta-me. Os olhos brilhantes e amarelos da coruja faíscam, zangados. – “Que tal... Fogo”? - “É um bom nome”, concorda. A cada dia que passa, a Fogo continua a lutar para ser livre, e eu preocupo-me que se machuque de novo. Finalmente, Dona Bete tira a tala da asa e a coloca numa gaiola. - “A Fogo precisa se exercitar” - explica-me.

     

     À medida que o tempo passa, a asa torna-se cada vez mais forte e ela é colocada numa gaiola maior. Por vezes, ignora os ratos mortos que Dona Bete lhe traz para comer. Prefere perscrutar o céu. Percebo que gostaria de caçar a sua própria comida.

     

     - Quanto tempo falta para ela poder voar de novo? — pergunto. – “Uma asa partida demora muito a ficar curada” — respondeu Dona Bete. – “Parece tão impaciente quanto ela, Natan”! –“É... Estou ansioso que a Fogo seja livre de novo. Quando estou na escola e vejo um pássaro voando lá fora, penso nela! À noite, quando ouço um grito de uma coruja, imagino que a Fogo estaria chamando os amigos”.

     

     Um dia, vejo a gaiola vazia. Dona Bete colocou-a numa pequena caixa. – “Vou pô-la na gaiola de voo, para ver até onde consegue ir” — explica-me. Enquanto a sigo, meu coração bate forte. Se a Fogo voar bem, será libertada hoje! Seguro a respiração, enquanto ela vira a caixa, de forma que a coruja possa pousar no chão da gaiola. A Fogo dá um salto e voa, forte e bonita. Mas, de repente, inclina-se e começa a descer. Fecho os olhos, mas consigo ouvir o baque suave da sua aterrissagem desajeitada. Quando olho, vejo Dona Bete abanando a cabeça. Percebo que ela nunca será libertada. Não tem a asa suficientemente forte para sobreviver na floresta. - “Pobre Fogo, queria tanto ser livre”! – lamenta Dona Bete. Com lágrimas nos olhos fico pensando. Sei muito bem o que é ter um desejo que não pode se realizar.

     

     Depois desse dia, a luz dos olhos da Fogo apaga-se. Recusa a comida e nem sequer tenta sair da gaiola. – “Por favor, não desista”! - digo-lhe. Mas ela continua imóvel em cima do poleiro.

     

     “Deve haver uma forma de ajudar esta coruja. Procuro, na Internet, informação sobre aves feridas. Deparo com um corujão-orelhudo quase cego que toma conta de corujinhas órfãs. Talvez a Fogo consiga fazer o mesmo”. Imprimo, e mostro à Dona Bete, que diz: - “Vale a pena tentar. Tenho três crias que ficaram órfãs na tempestade da semana passada”. Dona Bete as põe na gaiola da Fogo. As corujinhas balançam as cabecinhas e emitem uns pios engraçados. Mas ela não parece interessada em crias esfomeadas ou no que quer que seja.

     

     Como não suporto vê-la tão infeliz, decido ficar em casa alguns dias, triste por ela e por mim. Uma noite, Dona Bete toca à nossa porta e entra correndo. – “Vem comigo”! Antes de perceber o que está acontecendo, Dona Bete conduz a minha cadeira aos tropeções até sua casa e estaciona-me junto à gaiola. – “Olha”! - Nem posso acreditar no que vejo. A Fogo pega num pedaço de carne no chão, leva-o, aos saltos, até à gaiola-ninho, e o coloca no bico de uma das crias. Embora o seu desejo de ser livre não possa realizar-se, a coruja encontrou algo importante para fazer. E isso me dá uma ideia! No dia seguinte, vou até a casa de Dona Bete e fico pensando: “Posso não poder andar sozinho, mas vou encontrar uma forma de ajudar nas suas tarefas! Sei que os baldes são muito pesados; contudo, posso encher as tinas de banho das aves com a mangueira. Demoro para desdobrá-la e a arrastá-la até as gaiolas, mas não vou desistir até as tinas estarem todas cheias. Quando vejo o carteiro aproximar-se, vou até a calçada e recebo a correspondência. Enfio as cartas no bolso do meu casaco e levo-as até a casa. Na hora de alimentar os pássaros, ofereço-me para ficar no escritório, atendo os telefonemas, e anoto os recados. À tarde, antes de ir embora, Dona Bete abraça-me e diz: - “Você me ajudou muito hoje, Natan”. Fico envergonhado e abaixo a cabeça. Mas sorrio. Agora sei como a Fogo se sente orgulhosa!     

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