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    09/12/2019 09h24 - Atualizado em 09/12/2019

    Opinião: Ninguém é de ferro

    Para sextas santas e tantas de cada semana, a moda agora é sextou. “Sextou agora, viu?” É assim que dizem. E deitam falatório para sagrada e dulcíssima fase da semana. In vino veritas!


    A juventude rola de satisfação, e a gente, noutra ponta, amadurecida pelas bênçãos do tempo, rala e chora de preocupação. Não é pra menos.


    Simples equação, estilo britânico de trabalhar e viver, pela frente, cinco dias de pena para dois de farra. Tida e havida semana inglesa.


    Por antecipação, nada mais justo, convivas brindam no espírito da alegria, a vida que têm. Espera-se, com dever e senso de responsabilidade. Assim, pernas para o ar. Afinal, ninguém é de ferro!


    Por bons caminhos e direção, entre pobres e desesperadas criaturas da Terra, promessa de festança positiva em busca de lazer e pretendida glória: o dolce far niente. Principalmente se considerarmos que estamos num país cuja alegria é contabilizar tragédias com o próximo. Num lucro bobo e confuso, achando que estamos ilesos. Não estamos. Uma ou outra coisa chega. Quando não, chegantes, uma e outra coisa, juntas!


    Por falar em moda, levada por impulso do modismo a qualquer preço, a garota resolve tatuar na altura dos seios frase por ela desconhecida.


    E daí? Em tese, o corpo é dela, é "de maior", faça o que quiser, como quiser.


    E lascou, na altura do peito: "Keep The Faith".


    Vamos lá. De não significativa cultura, por acaso a garota sabia o significado do que gravou no corpo, pelo menos o idioma? Não sabia.


    Tomada pela fúria de uma prática perigosa, entre o descompensado e a compaixão, foi ao estúdio de tattoo e resolveu estabelecer suas normas: “risco o corpo que é meu, porque vi e achei bonita a frase, e pronto”.


    Em princípio, devia pensar um pouco antes de partir para agressões físicas de duvidoso valor social. Depois saber que o vínculo com a arte do procedimento é para sempre. Segundo dizem, uma cultura perene.


    Inquirida em que língua é a mensagem, responde: "Ah, sei lá! É daquele povo que gosta de guerra, de fala esquisita”. Num toque de rudimentar lembrança, menciona a língua dos tempos de Jesus.


    Alguém intervém para botar reparo: "não é árabe, grego, aramaico e nem hebraico. É inglês!"


    Nem foi a doidivanas que se interessou em saber a significação. Alguém ao redor. Logo a tradução do insculpido na corajosa. (Homem peitudo não é o corajoso? Ato contínuo, mulher peituda também pode ser corajosa. Por que discriminação no comparativo?)


    Logo o mistério da expressão "Keep The Faith", diluída a termo e tempo, num ato de profissão de fé, mesmo sem saber. Tradução: “mantenha a fé”. “Tenha fé”. Por aí. Bonita mensagem. Ainda bem.


    Delicada também a atitude de um jovem porra-louca em outro caso. E de polícia! Num ato de insana bobagem, adquire numa loja de camelô da cidade uma camiseta. Não avalia os dizeres nela estampados. Não demora, é parado numa praça e conduzido a uma delegacia de polícia para explicações de praxe.


    Que motivo tem o jovem para alimentar e espalhar ódio contra a polícia? – questionaram.


    --“Ódio, eu? De jeito algum! Por quê? Quem falou?”


    Num rígido e propício jogo de dardos na averiguação, na mosca: -- Sua camiseta fala. O que nela está escrito demonstra.


    De fato, longe de nutrir ressentimento negativo com a polícia. Mas não era bem isso que estava declarado na camiseta: "I hate police". Tradução não tão difícil para iniciantes da língua de Tio Sam:

    "Tenho ódio de polícia".


    Ih, deu ruim!


    Tivesse um pouquinho de bom senso não sairia por aí criando animosidade e situações desagradáveis, depois alegar que não sabia do feito. Mesmo que o artigo 5° da Constituição da República, na trapaça da sorte, venha ampará-lo na liberdade de expressão. Mas, para que causar desconforto?


    O mesmo vale para os amantes das sextas-sextou de fantasiosas tardes de benfazejas louras suadas, ao sabor de quem se encontra na proeminência topográfica etílica de um Monte Olimpo.


    À la santé aos incondicionais adeptos do momento e do vale enquanto dure, até que a ressaca do day after os pegue em blitzen moral, convenhamos, efeito estufa de considerável preocupação para os miolos e para a segundona braba na iminência de acontecer.

    LUIZ GONZAGA FENELON NEGRINHO, advogado, com escritório em Formiga, escreve aos domingos nesta coluna.

     

    ALEGRIA BOBA É CONTABILIZAR TRAGÉDIAS COM O PRÓXIMO


     

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