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    30/11/2019 10h12 - Atualizado em 30/11/2019

    Sem vocação para o social

    Ensaio

    No romance O Duplo, Dostoievski narra a angustiante sina de um funcionário público que vê sua posição social usurpada por um impostor. Pouco adiantam suas tentativas de desmascaramento: o duplo desempenha uma performance mais convincente da persona do protagonista do que ele próprio. A situação será familiar para a parcela da população brasileira detentora de investimentos morais e eventualmente materiais na ideia de Brasil que vemos ser paulatinamente substituída por outra. Dizendo de forma curta e grossa: para o escândalo de muitos, no Brasil pós-2015, Caetano Veloso se tornou menos atual do que Olavo de Carvalho, e o Templo de Salomão é mais representativo da cultura nacional do que a igreja da Pampulha (tanto espiritual quanto esteticamente). “Este não é o Brasil”, dizem alguns, em negação; já os fatalistas proclamam que “O Brasil acabou”.

    Talvez não fosse exatamente esse o “duplo” que o antropólogo Luiz Eduardo Soares tinha em mente quando escolheu o título de seu novo livro (O Brasil e seu Duplo), mas convém lembrar esse contexto como disparador da sua reflexão. O ensaio se propõe como nada menos do que uma interpretação do Brasil, concentrada naquilo que os historiadores chamam de “tempo presente” (o presente considerado como universo no qual convivem estratos e formações históricas de durações, intensidades e incidências diversas). Não é óbvio (e nem sempre retilíneo) o caminho argumentativo de Soares, mas é seguro dizer que o problema central do livro é o destino que a ideia classicamente liberal, iluminista e romântica do individualismo moderno recebeu no Brasil.

    O Brasil e seu Duplo trata da difícil passagem do Homo hierarchicus da sociedade estamental para o Homo aequalis da modernidade liberal. Na etapa inicial de seu argumento, Soares procura retificar leituras clássicas do problema da individualidade como origem do déficit democrático na sociedade brasileira, confrontando o vício fundamental desse raciocínio: o não reconhecimento ou atenuação das consequências do sequestro e escravização de africanos como base de nossa formação social. O tratamento que o autor dá ao problema se baseia na ideia, proposta pelo linguista Émile Benveniste, de que a constituição da subjetividade como possibilidade discursiva (noutras palavras, a ideia mesma de um “eu”) já pressupõe, como condição de possibilidade, um diálogo (um “tu”). O caminho trilhado nesse passo inicial é também reminiscente da reflexão de Frantz Fanon, com quem valeria a pena um diálogo mais explícito e alentado, sobre a psicologia das relações raciais.

    Para Soares, numa sociedade que nunca confrontou sua herança escravista, uma comunidade política (um “nós”) fundada em valores liberal-democráticos não é possível. Isto porque não há diálogo real quando os membros da força de trabalho não contam como sujeitos. Uma interação entre dominante e dominado não é realmente um diálogo, porque de cada lado os vetores de comunicação estão viciados de antemão: no sujeito dominante, pelo não reconhecimento da humanidade do outro; no subalterno, pela necessidade de dissimulação de desejos e interesses, tendo em vista a desumanização que preside a relação. Um possível antídoto, para o autor, seria a instauração de modos de subjetivação em que a incorporação do outro é o fermento da realização da própria identidade – aqui entram em cena o pensamento ameríndio e as formas de expressão artísticas consagradas pelo tropicalismo.

    Um dos pontos altos de O Brasil e seu Duplo está numa interpretação arrojada do acelerado encarecimento do individualismo na contemporaneidade. Para Soares, depois de uma fase hipernarcísica e autocentrada, o individualismo alcançaria um ponto em que a liberdade passe a incidir sobre a própria identidade do indivíduo – ultrapassada a busca pela miragem romântica do “eu autêntico”, viria a elaboração soberana de uma individualidade livre de determinações externas. Mesmo quando não haja uma discussão extensa de como esse processo se dá na prática, está claro que o argumento remete às explorações subjetivas das sexualidades e identidades de gênero não normativas, que não se conformam ao quadro de referência tradicional (e tampouco, no limite, ao do progressismo liberal, no qual a correspondência a um nicho predefinido é condição para a validação de um modo de existência). Assim, o individualismo exacerbado pode converter-se em seu contrário, perturbando a reprodução do livre mercado das identidades discretas e politicamente neutralizadas.

    A discussão deste livro não pode deixar de notar um aspecto problemático, salvo engano, do seu argumento: o ideal de sociedade apregoado no livro de Soares é em quase tudo liberal (um ideário radical, mas ainda enquadrado no liberalismo, onde o sol em torno do qual gravita a discussão é o indivíduo), mas o livro se socorre amplamente da crítica marxista ao capital e ao liberalismo como expressão ideológica dos interesses da classe dominante nas suas explicações históricas – em detrimento, o próprio autor não deixa de notar em sua discussão do “capitalismo autoritário”, da linhagem weberiana de crítica ao “patrimonialismo”. Nos termos dessa crítica, a valência dos princípios liberais é filtrada por interesses de classe e resulta, frequentemente, de incompreensões (aqui podemos invocar mesmo o weberiano Sérgio Buarque, em sua conhecida denúncia do “mal-entendido” da democracia), de modo que o seu sentido social não corresponde àquele visado em sua formulação teórica. É verdade que Soares tenta superar o dilema ao sustentar que assistimos hoje ao surgimento de um individualismo “neossocialista”, tendente à superação do capitalismo, mas esse mereceria porventura uma exploração mais extensa, mesmo que num terreno puramente especulativo. Também parece contestável, ainda que intelectualmente engenhosa, a esperança depositada no enraizamento das dinâmicas subjetivantes do tropicalismo, de resto analisado com argúcia, em sua visão para o futuro do país. Feitas estas ressalvas, é preciso reconhecer a importância desse livro ambicioso, que traz à lembrança um dito de Nietzsche: só são estimulantes as ideias vulneráveis à crítica.

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