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    07/11/2019 11h41 - Atualizado em 07/11/2019

    Opinião: Novo recurso ao conselheiro Aires

    Independentemente da análise de quaisquer medidas implementadas pelo atual governo, o fato é que vivemos mesmo uma época de intensas polarizações no Brasil já desde momentos antes do pleito de outubro de 2018.

    No meu último artigo, mencionei os dois símbolos do extremismo de pensamentos: o espadachim de esquerda, ávido por liberar seu verbo, sem maiores cuidados gramaticais, contra tudo que vier do governo em curso, e o gladiador de direita, em sentinela para rebater, de qualquer maneira, os ataques a seus atuais sacrossantos homens públicos. 

    Cada um apresenta suas características gerais. O espadachim de esquerda tenta demonstrar generosidade ampla, além de um certo cabecismo chato. Adora dizer que ama o mundo, mas parece ter uma viseira crônica para as soluções viáveis. Já o gladiador de direita almeja ser o gênio da fórmula do senso prático, ao resumir todos os problemas à administração dos seus próprios negócios, de modo que seu sucesso particular se tornará a chave do sucesso do Brasil, apesar de nossas desigualdades evidentes. 

    O frenético cabeça de esquerda pensa que dinheiro dá em árvore e deseja colar a pecha do inferno no que ele costuma chamar de interesses do mercado financeiro. Eu adoraria ver um desses tais cabeças administrando uma empresa. O contundente boxeador de direita considera que apenas e tão somente o capital privado nos conduzirá ao paraíso e que políticas públicas para a imensidão dos carentes não resolvem absolutamente nada. 

    O espadachim cabeça de esquerda não admite que o PT e seus asseclas dilapidaram os cofres do Brasil. Ou, se admite, julga que o fizeram por uma causa justa. A culpa é sempre dos outros. O gladiador de direita costuma enaltecer ditaduras e não digere críticas a Bolsonaro, pois a tudo enxerga como conspiração para derrubá-lo. Difícil, hein? 

    Na realidade, ambos, o espadachim de esquerda e o gladiador de direita, apesar de bastante cansativos e de sua habitual falta de credibilidade, acabam se transformando em espécie de divertidos personagens literários. 

    Sob a pena criativa de grandes autores, talvez pudessem se enquadrar no rol dos tipos meio excêntricos que sucumbem às torturantes e viciantes ideias fixas, das quais não conseguem jamais se abster. 

    Por falar em personagens literárias, quem bem soube lidar com os extremos, embora em suas circunstâncias específicas, foi o conselheiro Aires, aquele grande diplomata aposentado que surge em duas esplêndidas obras de Machado de Assis, “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires”.

    Sua imagem me reaparece em razão da avalanche de pessoas que vociferam e se agridem uns aos outros de modo tão voraz, seja na plataforma que for, em nome de seus ídolos da vida pública ou dos pensamentos que julgam corretos para o bem geral da nação. 

    Retratei-o, neste espaço, em artigo de anos atrás, e também em meu livro, com um texto chamado “Pedido de socorro ao conselheiro Aires”. 

    Republico, pois, abaixo, aquele texto, em seus principais parágrafos e com as adaptações necessárias.

    O conselheiro José da Costa Marcondes Aires, nosso personagem, era viúvo solitário e diplomata de carreira aposentado, um homem de meia-idade que também mantinha o hábito de escrever suas observações a respeito da conduta humana, ao molde de diários de lembranças ou memorial.
    Preferia mesmo escrevê-las a expressá-las em público, em virtude dos vários anos nas lidas da diplomacia e da grande cultura que ostentava. 

    Por certo, mercê das boas relações, respeito e admiração de que dispunha no convívio social, não lhe faltavam anotações para o farto manuscrito. 

    Nada como contemplar as atitudes dos homens! Talvez não haja cinema, teatro ou novela que supere a própria encenação humana em suas máscaras, interesses e desejos diários, muitos dos quais infelizmente lastreados no oportunismo que vira as costas aos valores mais dignos.

    Se o Conselheiro vivesse no século XXI, seu manuscrito teria, ao dispor de sua perspicácia e inteligência para anotações, imenso cardápio repleto de polêmicas, luta por espaço e dinheiro a qualquer preço, elevados níveis de hipocrisia, de incompetência, excesso de marketing em descompasso com a realidade, muita deslealdade, omissão e proveito nos poderes, além da desenfreada busca por triunfo de tantas nulidades que se imaginam melhores e mais preparadas do que realmente o são.

    Há de se registrar, porém, que o Conselheiro, apesar de tudo, não gostava de controvérsias. Por isso, como bom diplomata, sempre houve por bem procurar o meio-termo e as opiniões que procurassem apaziguar os ânimos.

    Suas relações com os gêmeos Pedro e Paulo em “Esaú e Jacó” o comprovam. Quem leu o livro sabe que Pedro e Paulo eram rivais nas ideias: um, adepto da monarquia; outro, da república, e, para agravar, também rivalizavam no amor a uma mesma mulher. Aires procurou, portanto, administrar as tendências diversas dos dois, à maneira de um pai espiritual, já que era amigo da família, e em razão de sua imensa experiência em conviver com os paradoxos. 

    O Conselheiro Aires, com extraordinárias participações nas duas obras, talvez seja a personagem que melhor represente o próprio Machado de Assis no que tange à sabedoria e à fina ironia perante os acontecimentos. 

    Decorridos os anos, Aires já podia se dar ao luxo de se entediar com as controvérsias, justo por reconhecer a fugacidade e a inconsistência da maioria delas. Justo por descrer da maioria dos contendores e desconfiar da solidez de suas ideias.

    ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna. 

    VIVEMOS MESMO UMA ÉPOCA DE INTENSAS POLARIZAÇÕES NO BRASIL


     

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