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    06/11/2019 13h01 - Atualizado em 06/11/2019

    Opinião: Cativos II

    “Nós não precisamos de controle de pensamento” - Pink Floyd, Another brick in the wall.

    Até parece que esta cativante música da banda britânica foi feita sob encomenda para os momentos atuais que vive a sociedade brasileira. É um libelo contra as ideologias que tentam impor a cada um de nós um modo único de pensar e, consequentemente, agir, matando a individualidade e procurando nos transformar em rebanho dócil, fácil de ser conduzido, um exército de autômatos. Quem vê o clipe da música e a tradução de sua letra, e tem um mínimo de honestidade intelectual, não pode deixar de se sentir inserido em seu contexto e de refletir sobre o tema.

    Padronização, formatação, enquadramento, submissão ao pensamento único emanado de uma entidade supostamente superior, um oráculo, um deus (religião e política muitas vezes aqui se igualam, pois ambas, em seus radicalismos, têm seus ícones e sistemas religiosos e políticos a serem seguidos e servidos cegamente, oferecendo, em troca, o ‘paraíso’ religioso, capitalista ou socialista), sem qualquer direito a questionamento ou reflexão: o líder falou, a massa de manobra, a patuleia ignara (obrigado, Aracy de Almeida, esteja onde estiver!) obedece quase em frenesi, replicando mundo afora o que o mestre mandou. Esse negócio é tão emburrecedor que, em meio à plebe ignara e frenética, há muitos e muitos letrados, graduados e pós-graduados.

    São palavras de ordem e um padrão de comportamento que se procuram incutir na mente das pessoas, utilizando-se, principalmente, dos meios de ensino, quer em escolas quer em igrejas, e de comunicação em massa. E quanto mais jovem for o sujeito-objeto da doutrinação, melhor, porque menor a sua capacidade de se defender e maior a de ser manipulado. Ousar pensar e agir por si mesmo, de forma autônoma, diferentemente do grupo, do partido ou da seita, é assinar a própria sentença de morte, levando a pessoa a ser considerada um herege, traidor da causa, apóstata a ser eliminado ou destruído das mais variadas formas, às vezes até fisicamente.

    Buscando resgatar a integralidade da cidadania, a Constituição de 1988 estabeleceu em seu Título II, do art. 5º ao 17, uma extensa, mas não terminativa, lista de direitos e garantias constitucionais, individuais e coletivos, tais como a liberdade de consciência e de crença, igualdade perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantia aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, direitos sociais, de nacionalidade e políticos. Como cidadãos, somos beneficiários, mas também guardiões, deste legado constitucional que procura nos assegurar um mínimo de dignidade como ser humano e nas nossas relações interpessoais, coletivas e em face do Estado. Cumpre a cada um, individualmente, e aos grupos e instituições legalmente organizados, sejam de caráter privado ou público, zelar pela observância e aperfeiçoamento dessas normas tão arduamente alcançadas, que custaram o sangue, suor e até vidas de muitos que por elas lutaram. Não podemos, em nome de paixões ideológicas ou religiosas, alugar, vender ou abdicar da nossa liberdade, do nosso sagrado direito de pensar e decidir por nós mesmos. Ou, ainda, querer submeter o outro à nossa concepção de mundo, por melhor que seja.

    Na história da criação narrada no Gênesis subjaz um princípio universal, do qual somos todos depositários, indistintamente, ateus e crentes: o da livre escolha. No relato bíblico, nem o próprio Deus impôs a sua vontade ao homem, mas concedeu-lhe a capacidade de decidir por si mesmo... e de responder pelas consequências. Pode-se até objetar-se, de que ninguém é livre totalmente. É verdade. Ninguém é uma ilha. Vivemos e convivemos com o outro e com as circunstâncias, influenciamos e somos influenciados. Carregamos em nós um pouco de tudo e de todos (coisas boas e coisas ruins, também) que foram relevantes para a nossa formação e que integram o nosso ser. Mas, em última instância, a decisão ainda deve ser pessoal.

    Se almejamos um mundo melhor para todos, devemos promover, antes, ações que prestigiem o exercício do livre-arbítrio, que aquelas que o impedem ou que o limitem. E a educação e o autoconhecimento são fatores fundamentais para que isso se realize.

    WASHINGTON L. TOMÉ DE SOUSA, bacharel em Direito, ex-diretor da Justiça do Trabalho em Passos, escreve quinzenalmente às quartas, nesta coluna

    DEVEMOS PROMOVER AÇÕES QUE PRESTIGIEM O EXERCÍCIO DO LIVRE-ARBÍTRIO
     

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