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    30/10/2019 11h00 - Atualizado em 30/10/2019

    Opinião: Brasília sem nuvem da corrupção

    Uso meu próprio exemplo de vida para dar 1 testemunho do momento glorioso que vivemos –apesar de perdermos tantas vezes a perspectiva histórica, afogados que estamos, todos, nas angústias e picuinhas do cotidiano. Pois me lembro de 35 anos atrás, a primeira cobertura “importante” de que participei, como freelancer (ainda era estudante): a convenção do PDS, o partido do regime militar, reunido na ocasião para escolher seu candidato no Colégio Eleitoral na sucessão do presidente Figueiredo. Estava também eu, no dia 15 de janeiro de 1985, na Câmara dos Deputados (freelancer da então revista Senhor), quando Tancredo Neves foi ungido pelo voto do colegiado criado pelo regime dos generais como o novo presidente do Brasil, 1 civil, derrotando o candidato oficial, Paulo Maluf.

    Voltando ao agora: nos últimos 10 meses, há uma novidade em Brasília, e não é pequena, nem banal. Pela primeira vez desde os estertores do regime militar (incluindo sua fase derradeira) não há, repito, não há corrupção sistêmica na Praça dos Três Poderes ou na Esplanada dos Ministérios. Pela primeira vez na minha vida sou testemunha ocular da História de que isso não está acontecendo.

    Mas como assim? Ora, a corrupção sistêmica sempre foi nas últimas três décadas e meia uma espécie de éter, uma substância invisível, que todos os observadores, operários ou operadores do poder podiam não ver, mas todos nós podíamos sentir. Isso era perceptível nos boatos, nas intrigas, nos desabafos, na própria engenharia de como o poder era constituído, na mecânica da política, na comunhão carnal entre Congresso e poder Executivo.

    Pois há 10 meses essa sombra não vem pairando sobre a capital da República. E confesso que é 1 tanto perturbador ver o núcleo do poder funcionando de acordo com uma dinâmica diferente, algo que, sinceramente, nunca achei possível e está acontecendo à luz do dia, aos olhos de todos. Mérito? Mérito do processo de purgação vivido pelo país ao longo da última década, nas sucessivas revelações estarrecedoras que provocaram espanto, asco, náusea, rigor, punições, excessos, mas que tiveram a força de colocar os atores políticos numa sintonia nova. Mérito do presidente Bolsonaro, que inventou uma forma de sustentação política que é 1 avião sem asas, 1 governo sem base de apoio e sem loteamento de cargos para ganhar apoio parlamentar.

    Avião sem asas? Objeto estranhíssimo, mas está voando. Não se sabe direito como, mas por enquanto está. Mérito também da classe política, que está votando pautas do interesse do país (como a reforma da Previdência) sem a faca no pescoço do fisiologismo. Tudo isso é novo e alvissareiro.

    Voltando 35 anos no tempo, já se sussurrava na convenção do fim do regime militar que o candidato oficial, Maluf, aliciava apoios pela via da compra de votos. Não havia provas, nunca houve, mas o rumor jamais desapareceu. Era 1 fato do mundo político. Do outro lado, “Doutor” Tancredo montava 1 toma lá dá cá pomposo chamado “Aliança Democrática”, o esquartejamento de administração pública federal pelos vencedores no colégio eleitoral, a semente de corrupção sistêmica, do fisiologismo, do “presidencialismo de coalizão”. Fórmula, aliás, imposta a e replicada por José Sarney. O bastidor político vivia infestado de desdouros.

    Fernando Collor, fato, assumiu sem promiscuidades com a classe política. Mas pairava sobre o governo a sombra cinzenta de PC Farias, ex-tesoureiro da campanha presidencial. A fama de arrecadador serial com respaldo do núcleo do poder era 1 fato político. E que se diga: Collor fora eleito numa heterodoxa eleição solteira presidencial, em 1989. E no primeiro ano de governo tinha de enfrentar a eleição de 1 novo Congresso e de todos os governadores. Portanto, tinha de “operar”. Politicamente.

    Itamar Franco retalhou seu governo com os partidos. Os rumores de sempre continuavam vivos. Fernando Henrique incorporou o PMDB para brecar uma CPI de compra de votos na emenda da reeleição. Lula enfrentou o Mensalão. Dilma, o Petrolão, até que eclodiu o cogumelo nuclear da Lava Jato. Pode haver corrupção no núcleo do poder hoje? Pode. E se for revelada será uma triste decepção. Mas não há 1 PC Farias, não há 1 operador geral da República, não há rumores de um “Bolsolão”. Nenhum rumor. Pode haver corrupção em áreas específicas do governo federal? Pode. Mas será totalmente diferente da metástase da corrupção sistêmica que existia até pouco tempo.

    Em Brasília, vivemos dias de uma atividade política saneada. Não apenas 1 governo que não está sistemicamente contaminado pela corrupção, mas uma classe política que não está sistemicamente atuando em conluios. Não há aquela sensação de apaniguados nomeados para atender interesses espúrios, não há aquela noção de editais sendo feitos para beneficiar este ou aquele interesse empresarial, não há boatos de tramitações legislativas radioativas. A corrupção persiste nos Estados? Provavelmente sim. Nos municípios? Provavelmente. Mas a corrupção sistêmica federal não está no horizonte pela primeira vez em quase quatro décadas.

    A democracia brasileira vive 1 momento luminoso. Tem ainda pela frente alguns grandes desafios, claro. Como conciliar a legítima participação dos partidos em governos democraticamente eleitos sem resvalar para a fossa da corrupção sistêmica do passado recente? Como garantir 1 sistema que previna e coíba os abusos da corrupção sem descambar para os arbítrios do abuso do poder, garantindo os direitos fundamentais?,

    O passado parece ter passado (pode voltar) e o futuro ainda não chegou (pode nunca acontecer). Estamos num entreato. Mas 1 fato é inegável: o céu de Brasília nunca foi tão transparente. É inédita a sensação de viver na capital da República sem a corrupção sistêmica pairando tóxica sobre as sedes do poder.

    MARIO ROSA, jornalista e consultor.


    O GOVERNO NÃO ESTÁ SISTEMICAMENTE CONTAMINADO PELA CORRUPÇÃO
     

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