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    22/10/2019 09h08 - Atualizado em 22/10/2019

    Vale do Café: memória presente

    Casarões da época áurea do ciclo cafeeiro impulsionam o turismo na região - e transportam os visitantes para o século 19

    Liz Batista - Especial para a Folha

    Um cenário de trama de época. Quem visita as fazendas e os casarões das cidades do Vale do Café, no interior do Rio de Janeiro, é imediatamente tragado pela história impregnada em suas paredes. Subir as escadarias e passar pelas grandes portas de madeira, adornadas por pesadas dobradiças de ferro, despertam uma curiosa sensação de deslocamento no tempo, misturada a um envolvente encantamento. Aqueles lugares querem te contar algo, te ensinar, te transportar.


    Ignore o estranhamento de achar que seus trajes estão errados, como se para estar ali fosse necessário outro vestuário, outro linguajar. Deixe-se levar. Você acaba de entrar nas residências daqueles que foram os poderosos barões do café no tempo do Brasil Império.

     

    Aprecie o som da pianola - imagine o alvoroço daqueles amplos salões em dias de baile. Permita-se, também, ouvir o choro, a dor, as canções de lamento que os escravos entoam das senzalas e a esperança que pulsa no batuque de seus tambores em dias de festa no terreiro. Abrace a viagem. Um pedaço do Brasil de hoje quer lhe contar como ele outrora foi.


    Situado na região do Vale do Paraíba, o Vale do Café já foi responsável por 75% de todo o café consumido no mundo. Apesar de carregar o grão no nome, a região não manteve a reputação de grande produtora. Seu apogeu foi no começo do século 19, durante o Segundo Reinado, entre as décadas de 1850 e 1860, tornando-se a mais rica do País.

     

    Mas o esgotamento do solo e a produção calcada na mão de obra escrava contribuíram para que tudo começasse a declinar por volta de 1870.

     

    Hoje, porém, esse passado se transformou em matéria-prima turística para os 15 municípios que compõem o Vale do Café. Apoderando-se dele a partir de seus casarões antigos, de suas enormes fazendas preservadas (que hoje funcionam como pousadas, restaurantes e espaços artísticos) e das histórias que sobreviveram geração após geração, as cidades vivenciam um momento de pleno empreendedorismo.

     

    Dessa forma, mantiveram a identidade histórica do ciclo do café de forma integrada e articulada e, mais recentemente, atenta a questões atuais como a necessidade de contar as narrativas a partir de ângulos diferentes, incluindo o de grupos sociais marginalizados à época.

     

    A região serrana consegue atender às mais diferentes expectativas. Oferece opções para quem procura arquitetura histórica, museus, música, gastronomia, ecoturismo, praticar esportes ao ar livre ou apenas relaxar em meio a uma paisagem verde e montanhosa, com lagos e rios que cortam trechos de Mata Atlântica. Tudo isso emoldurado por um céu de um azul intenso que fica registrado na memória. Nosso roteiro de seis dias incluiu Rio das Flores, Barra do Piraí e Vassouras.

     

    A maneira ideal de explorar a região é de carro. As cidades são próximas e guardam uma distância média de 10 quilômetros entre si - dá para optar por ficar em uma pousada e fazer viagens curtas entre as atrações, ou dividir a estadia em mais de uma. Vai do gosto do viajante.

     

    A Rodovia Presidente Dutra é o melhor acesso para quem parte de São Paulo, e a viagem dura cerca de 4 horas. Já quem parte do Rio chega à região em 2 horas, também pela Dutra. Para os cariocas, portanto, o Vale do Café pode ser uma opção para passar um fim de semana. Para os paulistas, pela distância, o ideal são quatro dias de passeio.

     

    É o suficiente para contemplar a paisagem, comer muito bem, quem sabe até se aventurar em uma trilha de bike. Mas, principalmente, aprender com a história que emana das paredes, dos casarões, dos relatos, dos museus. 

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