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    10/10/2019 11h15 - Atualizado em 10/10/2019

    Opinião: "Arquipélago Gulag", obra fenomenal (ll)

    Na sequência do primeiro texto, publicado há quinze dias, confesso que me tem sido impossível ler “Arquipélago Gulag” sem caneta e folhas à disposição para anotar trechos, páginas, frases, momentos e tudo que a obra oferece.

    O fato é que se trata de um livro muito mais para ser estudado do que simplesmente lido. O show de barbaridades torna-se tão intenso que o espaço para expressá-lo nunca me será suficiente. Tento, no entanto, dividir com vocês essa inesquecível experiência. Entreguei-me de tal forma à leitura, que tudo se torna ínfimo perante o relato de suas páginas.

    Em qualquer hipótese, transmitir minhas impressões sobre período tão longo e drástico de uma das ditaduras mais sanguinárias da história se transforma também em necessidade. Desaguar em texto aquilo que o incomoda e o domina significa uma maneira de se libertar da série de choques a que é exposto quem penetra as páginas de uma obra desse porte.

    Durante a leitura, os enfoques são múltiplos. A todo instante, ficam explícitos os detalhes das prisões bárbaras, tratamentos desumanos, fuzilamentos a tantos condenados à pena capital e às características arbitrárias dos processos, que somente existiam para conferir ares de legalidade ao regime de Stalin. Não faltam, mais à frente, as descrições dos trens que transportavam os detidos à maneira de animais engaiolados, além das terríveis condições de higiene dos cárceres e dos campos de concentração do arquipélago.

    Estamos perante narrativa que esmiúça, ao máximo, as circunstâncias dos episódios que o autor, Alexandre Soljenítsin, almeja deixar registrados. Afinal, ele próprio, conforme expus no primeiro artigo, foi uma das vítimas das brutalidades de Stalin. Detido em 1945, enquanto ainda lutava pelo Exército Vermelho contra os alemães, foi condenado, sem julgamento, a oito anos de prisão e a mais quatro de terrível exílio em trabalhos forçados numa ilha do Gulag.

    Um livro de tal estilo possui imensa importância não só por seu aspecto literário, porém pelo inegável valor histórico de que se reveste, um tipo de literatura de testemunho, que não se vale da ficção, mas se ancora em fatos que somente o talento, a coragem e a obsessão do autor por revelar a sorte de absurdos puderam trazer à luz.

    Na verdade, devemos ser gratos à sua disposição em nos proporcionar panoramas os mais fiéis possíveis das barbaridades de um regime conduzido por plena ausência de princípios humanos.
    Digamos que os desejos de Soljenítsin em publicar as terríveis circunstâncias por que passou um imenso número de prisioneiros naquela União Soviética de décadas atrás, inclusive ele, tenham me atingido profundamente, que só me resta compartilhar, neste espaço, as sensações que me a obra me despertou.

    No decorrer do estudo que empreendi, digo-lhes que temos vários casos de prisioneiros sob as mais torturantes injustiças. Nesse sentido, possível deparar com as fraudes processuais contra os engenheiros, contra o clero, contra os jornais, as legalidades forjadas da série de fuzilamentos e os processos contra os próprios revolucionários de 1917 - agora incursos como traidores do regime. Noutro ângulo, a os suicídios como única fuga possível da opressão, os advogados de condenados que sucumbem em suas defesas por temor e um histórico da pena de morte na Rússia desde os czares. A exposição das prisões abjetas, como os calabouços, as de trânsito e os campos de trabalho forçado do arquipélago, além dos roubos e humilhações a que eram submetidos os encarcerados, com destaque para a parca e péssima alimentação que os conduzia à fome prosseguem em várias partes. É preciso estômago.

    Soa prudente, todavia, que quaisquer questões relativas às políticas de poder devam ser analisadas sob perspectivas históricas, com suas gradações e circunstâncias. Mas uma obra como “Arquipélago gulag” sempre há de ter importância extraordinária para que se possa refletir sobre as questões de poder em seus alcances múltiplos.

    Ao nos entregarmos ao relato documental e testemunhal de Alexandre Soljenítsin, não há como sairmos imunes ao que o arbítrio e o mais trágico desprezo à dignidade são capazes de fazer. Num momento de polarizações excessivas na sociedade brasileira, tal livro se torna ainda mais valioso, justo por agregar literatura e história e nos fornecer subsídios para analises mais sóbrias.
    “Levar os cento e vinte à latrina, mesmo a um ritmo muito rápido, demora mais de duas horas... Portanto, tenham menos necessidades!” ( págs. 474/475)

    “Tantos e tantos fuzilados! A princípio, milhares. Depois, centenas de milhares. Fazemos contas de dividir, de multiplicar, e suspiramos. Amaldiçoamos. E, contudo, trata-se de simples números. Eles chocam o espírito. Depois, esquecem-se.” (pág.425)

    “O poder é um veneno conhecido desde há milênios. Mas para quem tem fé em algo superior e consciência de seus limites, o poder ainda não é mortal. Só para as pessoas com horizontes limitados é o poder um veneno cadavérico. De um contágio desses elas não têm salvação.” (pág.152)

    ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna


    O PODER É UM VENENO CONHECIDO DESDE HÁ MILÊNIOS 

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