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    20/09/2019 11h34 - Atualizado em 20/09/2019

    Dia a Dia: Crendices e superstições da Canastra

    Maria Mineira - Especial para a Folha

    Desde a antiguidade, benzedeiras e benzedores são associados às práticas mágico-religiosas, à manipulação das ervas e chás, aos saberes da natureza. Muito foi desmistificado, muito tem sido comprovado, muito ainda temos por descobrir. O que é certo é que seus dons nos transmitiram muito ao longo do tempo. Práticas de cura que misturavam conhecimentos naturais e fé.


    Estas pessoas ainda estão presentes de forma significativa em muitas regiões do Brasil e em nossas memórias.


    Gostaria de registrar algumas, por meio de lembranças e assim valorizar de algum modo a cultura popular, pois creio ser esta, uma forma de preservar conhecimentos e grande parte deles está alicerçado na oralidade de suas rezas, saberes, ameaçados pelo esquecimento.


    1 - Segundo os antigos, a melhor maneira de uma moça solteirona, mulher viúva e moça feia (as bonitas não precisavam) arrumar marido, era fazer uma simpatia assim: o dia que o caboclo desavisado fosse à casa da dita cuja, esta deveria oferecer um café coado numa calcinha que tivesse usado durante o dia. Diziam que era tiro e queda. Porém, o homem nunca deveria saber, senão morreria antes de completar sete anos de casamento.


    (Agenor, meu tio avô, contava que um antigo patrão, tinha uma filha muito feiosa em casa. Um dia, entrou na cozinha da casa grande para levar lenha. A mãe fritava uns bolinhos para ele e a moça feia coava um café num coador muito estranho. Intrigado e esperto feito pulga, pediu as contas e nunca mais voltou).


    2 - Uma pessoa que fosse picada de cobra cascavel, não poderia atravessar rio, nem córrego antes de ser benzido. Também não deveria de jeito nenhum ver mulher grávida, se o fizesse morria mesmo.


    (Um vizinho de meu avô foi picado e antes de chegarem à sua casa, foi um amigo avisar para a esposa grávida que saísse de casa e fosse morar com os pais dela até ele sarar).


    3 - Mulher de resguardo precisava comer sopa de galinha gorda por vários dias. Quanto à carne vermelha, apenas o lombo de porco sem gordura era permitido. Era expressamente proibido comer arroz por quarenta dias. Caso contrário a barriga nunca mais voltava ao normal, virava barriga d’água.


    (Quando criança, eu adorava comer a sopa de galinha que vó fazia para minha mãe nos resguardos. Ela servia a sopa numa tigela grande de louça com desenho de florzinha que a deixava ainda mais saborosa).


    4 - No dia de São João, antes do sol nascer, é preciso acordar e ir até uma fonte de água limpa. A pessoa se olha, espalma as mãos e conta os dedos. Se não enxergar o reflexo na água e nem contar todos os 10 dedos é porque vai morrer naquele ano.


    (Lembro-me que na roça, junho era mês de muito frio. Mesmo assim, minha mãe nunca se esqueceu disso: acordava todos os filhos e nos levava lá no córrego, e um por um, ela conferia o reflexo e contava os dedinhos de todos nós. Quando nos mudamos para a cidade, não havia riacho na horta, então ligava a torneira e enchia uma bacia d’água. Ela nunca ficou sem contar os dedos dos filhos. Enquanto havia um morando na casa dela esse ritual foi cumprido).


    5 - Quando os pastos estão estalando de secos, é preciso chuva para começar a plantar as roças. Reza a lenda que toda vez que se rega e enfeita uma cruz chove.


    (Certa vez, meus avós reuniram uma turma para aguar a cruz. Havia mulheres e crianças pela estrada afora, levando cabaças d’água e flores até ao pé da Serra, onde havia um cruzeiro. Ali rezávamos pedindo chuva, colocávamos flores, e despejávamos a água. Meu irmão mais novo, o Zé Carlos, tinha uns sete anos. Nunca vi menino bom de pontaria que nem ele! Um sabiá pousou na cruz, sem querer o Zé mirou uma pedra e acertou a ave que caiu fulminada. Todos choramos quando vimos o bichinho ali ao pé da cruz. Pior que esse dia a chuva só pingou. A meninada toda culpou o menino. Meu irmão fica triste até hoje quando se lembra).

     

    6 - Eu cresci rodeada por crendices e superstições. Minha avó e bisavó maternas, por exemplo, eram verdadeiras enciclopédias no assunto. Me lembro de Vó Benvinda, avó paterna benzendo assim:
     


    Para curar cobreiro:

     Pegar um ramo de arruda molhado em água benta.
    Circular o ramo onde estiver o cobreiro e dizer as palavras por três vezes seguidas:
    — Cobreiro bravo o que corta?
    — Corta a cabeça, o meio e rabo.
    — São José perguntou a Santa Maria
    — Cobreiro bravo com que curaria
    — Com três ramos molhados na fonte.
    — Um Pai Nosso e uma Ave Maria


    Depois a Vó pegava o ramo, cortava em três pedaços, embrulhava num pano branco e pendurava para secar acima do fogão ou ao sol. Em três dias a pessoa ficava curada.
    Nota: Cobreiro é denominação popular do herpes-zoster ou zona-zoster, doença de pele que o povo atribui ao contato de cobra.

     

    MARIA MINEIRA é autora do livro “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”. E-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br 

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