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    14/09/2019 10h36 - Atualizado em 14/09/2019

    Dia a Dia: O turco gozador

    Adelmo Soares Leonel

    O Gregório Jundurian encerrou sua vida esportiva assoprando apito. Nunca entendi sua inclinação masoquista: a vida inteira jogou futebol como goleiro, embaixo dos três paus, sem o reconhecimento e a glória dos artilheiros e, vez por outra, sendo aclamado pela torcida com “frangueiro! frangueiro!” igual a seus colegas de posição, por mais craques que fossem. Depois, como juiz e aturando os conhecidíssimos refrões homenageando sua mãe e inventando preferências sexuais desabonadoras. No entanto, o Gregório foi o melhor goleiro da região, em sua época, defendendo equipes de São Paulo e a briosa Esportiva de Guaxupé. Bonachão, tranquilo, grandão, sua maior característica, no entanto, era a fina capacidade da gozação.

    Nos meus tempos de bola, chegamos a jogar juntos algumas vezes, ele já encerrando a carreira e eu subindo da categoria juvenil para a principal. Prá mim e alguns companheiros, êle era o Turco, grande professor, emérito conhecedor das patifarias e malandragens que grassavam no meio.

    Lembro-me, certa vez, cheguei atrasado num treino noturno, a time já se aquecendo, corri para me trocar. Peguei o intocável e inatingível Gregório dando nó nas pernas das calças e mangas de blusas penduradas nos cabides, fincados lado a lado no enorme vestiário. Aquela atitude poderia ser considerada a mais abominável dentre todas, por despertar a ira coletiva, só perdendo para o roubo explícito, e vinha acontecendo havia algum tempo, sem que se descobrisse o famigerado autor que, na certa, levaria uns cascudos pelo ato. Mas o Gregório? O paizão da turma, conselheiro, queridíssimo, representante dos jogadores junto à diretoria!!!

    - Aí, hein Turcão? Que flagra.

    Estava até bonito. Tudo amarradinho, igualzinho, parecendo rabos de mula trançados. Êle me olhou tranquilo, soltou o risadão de sempre e perguntou, como se não soubesse a resposta:

    - E então? Vai me entregar?

    - Cê sabe que não, Turco.

    - Então, espera prá ver.

    Terminado o treino, a indignação geral. Xingatório geral. Quem pede silêncio para unificar a bronca? Claro. Êle. O Gregório, na maior cara de pau, mandou chamar o diretor de futebol, o presidente, o técnico. Conseguido o silêncio, principia:

    - O safado que fez essa sacanagem faça o favor de se acusar aqui, agora. Puta falta de consciência e companheirismo! Está vendo, presidente como é verdade a precisão de construir armários individuais e trancados. Hoje não se pode confiar em ninguém. Em ninguém!

    Na semana seguinte, êle trocou o conteúdo dos bolsos de todas as calças. Outra confusão. Acusações mútuas. O pau quebrou. A mesma ladainha do Gregório. Até que, numa bela tarde de jogo, a surpresa: a uma fieira de armários de aço, com nossos nomes decalcados em cada um, duas chaves enfiadas no chaveirinho com as cores do clube.

    Mantive o segredo.

    Passados muitos anos, volto de férias a Guaxupé e topo com o Gregório se preparando para apitar um jogo na Pra-tinha, negra de uma melhor de três contra o time de São Pedro da União. O convite veio na hora:

    - Acompanha a gente lá e diz que você é o representante da Federação Mineira de Futebol. Prá dar moral!

    A gente era o Barriquinha e o Baú, bandeirinhas juramentados atrás duns trocados de final de semana.

    - Uai, Turco. Não sabia da sua filiação ao quadro de árbitros da Confederação Brasileira de Desportos.

    Ele lustrou a insígnia pregada no uniforme preto.

    - Pois custou baratinho na banca dum camelô em São Paulo. Prá dar moral!

    O Gregório era bom no apito. Apesar da chuva pesada, da lama, escorregões, trazia a partida na mão, respeito absoluto dos jogadores. O futebol é que estava ruim, monótono, covarde, zero a zero. No intervalo, entre uns goles de água, mineral gasosa (ele exigia!), comentou:

    - Vou esquentar esse jogo. Presta atenção.

    Encostou, discretamente no capitão da equipe da casa e sussurrou:

    - Manda o pessoal cair na área...

    Êpa. Isto significava, no submundo da bola, um trato de juiz comprado, subornado, que apitaria o pênalti ao menor encontrão ou simulação de falta dentro da grande área. A ordem se alastrou.
    Na desculpa de verificar um improvável rasgão na rede, o Gregório se achega ao goleiro do time de São Pedro e cochicha:

    - Fala pros seus atacantes cairem na área...

    A sugestão foi espalhada.

    As torcidas que cercavam as linhas do campo não entenderam mais nada. De repente, o ataque, a bola cruzada e três ou quatro jogadores se atiravam no barro, gritando, à tôa, à tôa. Na outra área, o mesmo fenômeno. Vinha o balão do meio e a turma berrando e se espatifando na lama, de monte. Nada de apitar pênalti, só o sinal com a mão para se levantarem que não tinha sido nada. E assim transcorreu todo o segundo tempo a ponto de já nem ser mais possível diferenciar os jogadores pelos uniformes ou pelos cabelos ou pelos próprios rostos. Era tudo um barro só. Mesmo os torcedores mais fanáticos começaram a rir das palhaçadas, sem saber a origem delas. Virou circo.
    Cercado pelos barreados e esfolados atletas, depois do apito final, o Gregório desmentia:

    - Ocês tão malucos, caras? Sou juiz da CBD, honesto, não tem dinheiro que me compre! Quem inventou essa de cair na área?

    A negra foi disputada na porrinha.

    E as cãibras na minha barriga com o acesso de riso somente sossegaram depois de muita massagem e mio-relaxantes.
     

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