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    13/09/2019 09h51 - Atualizado em 13/09/2019

    Dia a Dia: Burrim Véi

    Maria Mineira - Especial para a Folha

    Havia um lugar solitário perdido na imensidão da Canastra, casa de avós, onde crianças alegres passavam as férias. Toda manhã tinham leite puro, devido à suculenta e verdejante pastagem que brotava naquele sítio.

     

    Capim orvalhado, consumido e ruminado lentamente em horas de silencioso mastigar dos animais, com seus enormes olhos, voltados para o chão e para o céu. Daquele ruminar ao entardecer, dependia o leite tão saboroso na manhã seguinte.

     


    Além das vacas, cabritos e aves, havia no sítio um burrinho velho deixado pelo boiadeiro, em troca do pouso numa noite chuvosa.

     


    O animal era de cor marrom, pelo ralo e olhos mansos. Tinha uma doçura e mansidão sem fim. Virou montaria de intrépidos cavaleiros e amazonas, passava os dias pastando a grama que crescia verdinha, ali em volta da casa. Deram-lhe o nome de Burrim Véi.

     


    A menina começou a protegê-lo, tão manso e indefeso parecia ser. Até convenceu o avô a construir um cocho, onde depois dos passeios, o deixavam ficar comendo farta e sossegadamente o milho, as canas e até cenouras que trazia da horta da avó.

     


    Dizem que os burros têm mais intuição que os cavalos, principalmente para distinguir o perigo, em estrada molhada, para descer morro e até para atravessar rio o burro é mais garantido.
    Nas férias de final do ano, a menina foi a primeira a chegar, procurou no gramado onde o animal ficava e não o encontrou. Com o coração apertado perguntou ao avô:

     


    —Vovô, cadê o Burrim Véi?
    O avô nunca mentia para os netos e com semblante triste contou:
    —Seu tio vendeu ele...
    —Vovô, cumé qui o sinhor teve corage de deixá vendê ele?

     


    —Ieu num dexei minha fia, sabia qui ocêis tinha amor nele. Foi seu tio qui vendeu no dia qui o vovô num tava im casa...
    O tio apareceu de repente e sem um pingo de dó, riu e foi logo dizendo aos sobrinhos:
    —Aquele burro véi docêis, uma hora dessas já virô salame! Oia as butina novinha qui ieu comprei com os cobre.

     


    A menina chorou sem parar. Se recusava olhar para o tio, não falava com ele. Não pedia mais a benção, transformou-se na sua maior inimiga. Não gostava nem de ver as roupas dele secando no varal.

     


    Certo dia, o tio foi picado por uma cobra cascavel, ficando entre a vida e a morte, pediu que chamassem a sobrinha. Queria seu perdão.
    O avô pegou a neta pela mão, levando-a até onde estava o tio. Ela emudeceu ao olhá-lo nos olhos e saiu correndo do quarto. Sentia um mal estar enorme diante dele, uma coisa sem explicação.

     


    Depois de algum tempo, convenceram-na a voltar e falar com ele. A benção ela tomou de longe, com medo que ele morresse, mas não conseguiu dizer mais nada. Sua presença a magoava, isso durou anos. A cicatriz ficou apesar do tempo ter se encarregado de amenizar, fazer doer menos.
    Restou a saudade do Burrim Véi... Em volta da casa a grama cresceu.

     


    MARIA MINEIRA é autora do livro “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra” . E-mail: mariamineira2011@ yahoo.com.br  

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