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    29/08/2019 11h35 - Atualizado em 29/08/2019

    Opinião: Entre o jornalismo e a literatura

    Sempre procurei expor que, para dar vazão aos atos de ler e escrever, fiz de dois campos meus pilares: o jornalismo e a literatura. Na introdução de meu livro de resenhas literárias publicado há dois anos, fiz questão de ressaltar a influência natural de meu pai, Alberto Calixto Mattar, o velho Beto, em tal caminho. Beto era um simples autodidata de formação primária que nutria paixão por jornais e livros.

    Jornalismo e literatura são campos de manifestações e estilos diferentes em matéria de objeto e linguagem. Se ao jornalismo cabe o relato objetivo e diário dos fatos cotidianos, inclusive suas análises por meio de editoriais e opiniões de colaboradores, à literatura cabe o registro da trajetória humana em suas inúmeras vertentes culturais, ao valer-se do talento dos escritores para arquitetar narrativas as mais diversas.

    Vale reprisar, a propósito, o que manifestei no meu penúltimo artigo, uma resenha sobre “Ressurreição”, que está entre as grandes obras de Tolstói: a literatura ostenta o poder de retratar épocas e torná-las eternas aos olhos do leitor. 

    Eis, pois, um dos aspectos preponderantes das diferenças: enquanto ao jornalismo cabe o relato dos fatos diários de interesse público que se tornam notícias e motivos de debates, à literatura importa resgatar circunstâncias que se perpetuam aos olhos dos leitores e fazem seus criadores imortais. Noutros temos, o documento dos fatos jornalísticos transcorre à velocidade da luz, as obras literárias se sedimentam pela atemporalidade. 

    Para melhor fundamentar o que penso, valho-me de algumas frases que bem expressam as características dos dois tipos de linguagem. Numa delas, de 2012, o jornalista e escritor Humberto Werneck, que, atualmente, mantém uma coluna semanal no “Estadão”, assim se expressa: 

    “Pode ser útil esta distinção entre a prosa literária e a jornalística: na literatura, a palavra não é meramente um meio de dizer alguma coisa, mas um fim em si. O modo como se conta uma coisa pode ser tão ou mais interessante que essa coisa. Não dá para imaginar “Grande Sertão: Veredas” contado de outra forma, sem que o romance de Guimarães Rosa se transforme numa história de moça travestida de vaqueiro.”

    Acrescento: o que não diríamos de obras como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” sem aquele estilo próprio e refinado de Machado de Assis? Pensemos na ruptura de padrões de Mário de Andrade, na precisão da palavra exata e suficiente de Graciliano Ramos, que com pouco, sempre disse muito. Lembremos ainda a densidade da prosa de Milton Hatoum, a eloquência de Inácio de Loyola Brandão e por aí vai. 

    Prossegue Werneck: “O jornalista escreve porque sabe, leu, pesquisou, foi lá, viu, entrevistou, e só depois disso sentou-se para escrever; ao passo que o escritor, como diria Fernando Sabino, escreve não porque saiba, mas para ficar sabendo. A ficção é um voo cego, é partir sem saber exatamente aonde se vai chegar.”

    Emendo: ao jornalismo, a informação indispensável. À literatura, o romper de estruturas e a abertura plena da existência sob a estética da linguagem arduamente arquitetada e que estimula os níveis de leitura os mais profundos em meio a personagens e enredos. 

    De qualquer modo, há inúmeros trabalhos de pesquisa aptos a expor, que, embora diferentes, jornalismo e literatura sempre mantiveram seus pontos de intercessão, principalmente ao final do século XIX. Nesse contexto, segundo estudo de Sandra Guimarães, os escritores daqueles anos deviam a construção de seu renome aos artigos, crônicas, críticas e folhetins que publicavam apenas nas páginas dos jornais, o instrumento maior que lhes oferecia prestígio e popularidade. 

    Cabe ainda dizer que grandes escritores sempre atuaram com intensidade nos jornais, tanto no Brasil, como no mundo. Nomes de peso como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade, Eça de Queiroz, Dostoiévski, Gabriel Garcia Márquez, Clarice Lispector, Luís Fernando Veríssimo, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Ruy Castro, Gay Talese e tantos outros deixaram também a marca de suas palavras na imprensa. 

    Tendo por objeto comum o amor à confecção da palavra escrita, jornalismo e literatura são fontes inextinguíveis de informação, prazer e aprimoramento cultural. Suas diferenças não impedem jamais a história que preservam em comum na manifestação de fatos, pensamentos e criações. 

    Nutro paixão por ambos. Uma paixão que se transformou na dependência diária de penetrar na leitura do que nos oferecem as duas formas de expressão.

    ALBERTO CALIXTO MATTAR FILHO escreve quinzenalmente, às quintas, nesta coluna.


    GRANDES ESCRITORES SEMPRE ATUARAM COM INTENSIDADE NOS JORNAIS



     

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