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    24/08/2019 11h38 - Atualizado em 24/08/2019

    Telemedicina ainda está na sala de espera

    Atendimento médico já pode ser feito por meio de consultas por apps e inteligência artificial, mas serviço gera polêmica

    Hoje, quem fica doente precisa sair de casa. Afinal, ainda que muitos médicos aceitem fazer a consulta por meio de WhatsApp e Skype, não há meios oficiais e seguros de encaminhar a receita. Mas a solução para isso já pode estar na tela do seu celular.

    É a telemedicina, ramo do atendimento médico que leva consultas, exames e triagens direto a plataformas digitais especializadas, e com uma grande leva de startups tentando entrar no mercado.

    Uma dessas startups é a Teldoctor, de teleconsultas.

    Fundada em 2018, a empresa oferece uma plataforma, via aplicativo ou website, que faz triagem ou atendimento médico simples.

    Ali, o paciente passa por um questionário típico dos consultórios (idade, cirurgias, remédios) e, depois, relata a dor ou incômodo que sente.

    A partir daí, o serviço usa uma inteligência artificial própria para fazer um diagnóstico prévio.

    Para validar a máquina, um médico do corpo clínico da Teldoctor faz a certificação do caso, que também é enviada digitalmente ao paciente.

    Como qualquer médico, o profissional da Teldoctor pode prescrever remédios e exames ou fazer encaminhamentos a outros profissionais – ainda que medicamentos específicos, como antibióticos, sejam evitados. Tudo isso é feito em poucos minutos, de maneira digital, com um custo de R$ 69,90.

    “Nós fazemos um atendimento primário e que envolva apenas alguma das três mil doenças mais comuns do mundo.

    Caso a gente perceba que é algo mais grave, estornamos o valor do atendimento e encaminhamos para um pronto-socorro”, explica Marcelo Callegari, sócio da startup. Segundo ele, a startup já realizou 450 mil atendimentos desde a sua criação e tem capacidade para 150 mil consultas ao mês.

    “O nosso objetivo é levar isso a cidades que não têm atendimento. É desafogar o SUS com uma boa triagem.”

    O alívio de movimento dos prontos-socorros é o que também mira a Teladoc, empresa americana que chegou ao País em 2018 após comprar a Advance Medical, empresa de orientação médica via telefone. Com a união, a companhia passou a oferecer serviços de vídeo – entre os clientes da Teladoc estão BRF, Grupo Renault, o Hospital Sírio Libanês e o Grupo Fleury.

    “Hoje, cerca de 51% das pessoas que ligam pelo 0800 e tinham intenção de ir ao pronto-socorro acabam ficando em casa. Quando a gente passar a realizar a consulta, esse número pode subir para 80%”, explica Jean Marc Nieto, diretor-geral da empresa no Brasil.

    Além de triagem e consultas, a telemedicina olha também para a digitalização de exames. Startups como Portal Telemedicina, acelerada pelo Google, oferecem uma plataforma online que conecta clínicas pequenas ou em regiões remotas com especialistas espalhados pelo Brasil.

    Ou seja: quem mora em alguma cidade afastada não precisa se deslocar com seu exame para saber os resultados. Basta enviar a documentação pela plataforma e esperar o laudo – os dados ainda ficam armazenados por até cinco anos caso o médico precise recorrer a informações mais antigas.

    Legislação
    Apesar das promessas de agilidade e precisão, a telemedicina é alvo de polêmica. No começo do ano, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a norma 2.227/2018, que regulariza o exercício de medicina via meios digitais em plataformas que sigam regras de segurança e privacidade.

    Porém, foi revogada dias depois após protestos de parte da comunidade médica, o que fez uma norma de 2002 voltar à ativa. A nova regularização está em consulta pública, e deve ser publicada no fim do ano.

    “Em 2002, não havia Facebook, iPad e smartphone. A tecnologia avançou e a medicina tem de acompanhar”, afirma Chao Lung Wen, da Câmara Técnica de Informática em Saúde do CFM. “A comunidade médica tem de entender que é uma oportunidade”, diz.

    Nos Estados Unidos, onde a prática da telemedicina já é legalizada e possui mercado ativo, a receptividade do público é alta.

    Segundo a consultoria Accenture, hoje 29% dos 2.338 entrevistados nos Estados Unidos usam alguma forma de atendimento virtual. E mais da metade usa enfermeiros virtuais para monitorar condições de saúde, medicamentos e sinais vitais.

    “Alguns centros estão muito avançados e já trabalham ativamente nas áreas de ensino, pesquisa e até atividades assistenciais com telemedicina”, destaca a vice-coordenadora do Núcleo de Educação a Distância e Tecnologias da Informação em Saúde da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), Denise Zornoff.

    “Mas o Brasil tem um forte potencial. Já tem programas de impacto que colocam o País no mapa da telemedicina e se torna promissor para investimentos neste mercado. É impossível parar a telemedicina.”

    À espera
    Não é bem assim. A indefinição da regulamentação freou investimentos – há o receio de que produtos seja restringidos ou proibidos.

    A Telavita, por exemplo, está em um estado de suspensão com a telemedicina.

    A startup é uma estrutura preparada para fazer consultas por meio de vídeo.

    É um modelo testado e validado por conta do serviço de consultas com psicólogos, modalidade que tem sinal verde para funcionar.

    No entanto, a startup decidiu esperar a regulação para evitar dores de cabeça no futuro. “A situação é a mesma de quando esperávamos a regulação da teleterapia. Hoje, já podemos fazer orientação, mas não diagnósticos completos”, explica Milene Rosenthal, fundadora da Telavita.

    O que ela espera é um posicionamento do CFM com relação aos protocolos, já que a prática é difícil de mudar. “As pessoas já consultam médicos por Skype e WhatsApp. Esperamos que o conselho olhe para segurança”, diz.

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