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    24/08/2019 11h28 - Atualizado em 24/08/2019

    Dia a Dia: Dentaduras no Atacado

    Adelmo Soares Leonel

    Os bravos da tribo Pataxós teimam em sobreviver, cercados de jagunços e grileiros, no sul da Bahia, defendendo com unhas e dentes suas terras de uma constante e iminente ameaça de invasão pelos predadores vizinhos.

    Região nervosa, em eterno pé-de-guerra, escaramuças armadas, vigiada de perto pela exército e pela polícia federal, para lá fomos escalados a dirigir uma turma de estudantes de odontologia no brilhante, hoje relegado pela incompetência governamental, Projeto Rondon.

    Dormíamos em Teixeira de Freitas (maior cidade da área) e, durante o dia inteiro, a bordo de treilers bem equipados, nos dirigíamos à taba para o atendimento dos índios e algumas famílias piraquaras.

    Trabalho duro, sob um sol saariano, olhares desconfiados e hostis durante o primeiro dia mas a alegria e descontração da estudantada logo quebrou o gelo, substitituido por carinho e presentes artesanais, galinhas e uma bebida fortíssima à base de aipim que subia mais que as pingas do Glória.

    Se alguém não aceitasse pelo menos uma cumbuquinha de meia-cuia, considerada a maior das afrontas, o pele-vermelha fechava a cara e ameaçava com a borduna.

    Tadinha de um menina crente que passou apertada entre o dilema de contrariar seus princípios e proibições religiosas ou levar uma bordunada.

    Optou pela primeira, mas bebeu de joelhos, rezando e pedindo perdão a Jeová por não trazer em si a vocação ao martírio.

    Umas cinco luas depois, ela já portava uma cumbuquinha dependurada no pescoço e fazia questão de ser a primeirona numa tomada bem cheia da aipioca.

    Nos finais de tarde, ao retornarmos aos nossos alojamentos na cidade, sempre havia uma festinha oferecida pela rapaziada local e a caipirinha rodava solta até altas horas.

    Entretanto, uma turminha de alunos desaparecia constantemente e, na volta, vinham abarrotados de dinheiro, esbanjando-o em pilhas e pilhas de cerveja e uisque.

    Ora, todos estávamos carecas de saber que a mesadinha mirrada deles nunca daria para promover uma gastança daquelas, dignas de coronéis do cacau.

    Preocupado com a origem suspeita da dinheirada, procurei me inteirar do caso, mas havia um pacto de silêncio entre eles, reforçando assim meu temor de estar ocorrendo algum tráfico de drogas ou outras tretas, capazes de dar cadeia ou uma dor de cabeça qualquer.

    Responsável por eles, me esgueirei atrás dos "mafiosos", protegido pelas sombras da noite que avançava, até um botecozinho nas cercanias da cidade, onde os esperavam um magote dos moradores simples que formaram uma grande fila assim que os estudantes entraram.

    Deixei passar um tempo e irrompi abruptamente boteco adentro, disposto a pegá-los em flagrante delito e acabar de uma vez por todas com a maracutaia.

    Estranho quadro: uma velhinha de boca aberta, sentada em tosca cadeira no centro da venda baixa e sem forro, rodeada pelos alunos que lhe experimentavam uma dentadura retirada de um saco de aniagem estendido no chão de terra batida.

    Passado o susto inicial, os criminosos confessaram a sandice.

    Acontece que na faculdade, a turma inteira era obrigada pelo departamento de prótese a confeccionar um par de dentaduras em modelos e eles surrupiaram toda a produção, com a finalidade de comercializá-la com os locais.

    Pegavam uma e experimentavam na gengiva da vítima. Se ela não reclamasse, ótimo, vendiam na hora.

    Se estava apertada, ou a trocavam no saco ou, com a ajuda de um canivete e uma lixa, a desgastavam até servir "diretinho".

     Se frouxa, lascavam Corega para fixação.

    Um sucesso de vendagem, pelo tamanho da fila e a cara satisfeita dos que dali saíam com o maior dos sorrisos, mostrando a nova aquisição.
     

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