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    14/08/2019 08h40 - Atualizado em 14/08/2019

    Cultura e barbárie no sertão mineiro

    Obras de Mário Palmério, que estavam fora de catálogo há anos, foram reeditadas pela Autêntica. Vila dos Confins e Chapadão do Bugre (inspirada em fatos ocorridos em Passos), seus dois romances regionalistas fundamentais

    André Cáceres - Especial para a Folha

    O sertão é um dos protagonistas literários de 2019. Além de Euclides da Cunha ter sido homenageado na 17.ª edição da Flip realizada em Parati, reedições importantes restauraram nas prateleiras a presença de autores que ajudaram a concretizar o imaginário sertanejo, como Guimarães Rosa, cuja obra-prima “Grande Sertão: Veredas” ganhou uma nova edição pela Companhia das Letras, e Mário Palmério, que estava fora de catálogo há anos até a Autêntica publicar “Vila dos Confins” e “Chapadão do Bugre” – inspirada nos fatos ocorridos em Passos, seus dois romances regionalistas fundamentais.

     


    Esse trio revela, por meio de suas obras, três facetas distintas do que se convencionou chamar de “sertão”. Euclides aborda o tema com um verniz científico e exotismo; Guimarães investe na aura mística de um sertão universalizante; e Palmério se atém majoritariamente à dimensão política do interior do Brasil, e com conhecimento de causa: além de escritor e educador, foi eleito deputado federal três vezes por Minas Gerais.

     


    É precisamente o embate entre o mundo vil da política e a paisagem rústica do sertão que ele retrata em seu romance de estreia. “Vila dos Confins” foi lançado originalmente em 1956, mesmo ano de “Grande Sertão: Veredas”. Essa coincidência, aliás, não é a única: Palmério (1916-1996) assumiu a cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras em 1968, sucedendo o conterrâneo Guimarães.

     


    A premissa do livro é simples: às margens do fictício Rio Urucanã, a Vila dos Confins acaba de se emancipar, e o deputado Paulo Santos percorre o vilarejo para angariar votos para as primeiras eleições municipais da nova cidade. Palmério desnuda as entranhas da política da época - não tão diferente da contemporânea -, o sertão do voto de cabresto, das fraudes eleitorais, das emboscadas políticas e dos jagunços pagos para defender coronéis que só desejam se perpetuar no poder. Seu narrador, adotando uma linguagem que preza pela precisão nos trejeitos orais da região, não perdoa: “E agora, a maldita política! Nem mal acabava uma eleição, inventavam outra…”

     


    O pleito se dá entre o coronel Chico Belo, cuja família tiraniza a região há anos, e João Soares, recrutado por Paulo Santos para representar os interesses de seu partido, a União Cívica. O primeiro terço do livro consiste basicamente no périplo do deputado pelas fazendas dos Confins convencendo - nem sempre por vias éticas - seus antigos compadres a se candidatar a cargos na administração do novo município.

     

    O protagonista, que a princípio parece bem-intencionado, vai se revelando aos poucos apenas mais uma das engrenagens do sistema: “Paulo esfregava na cabeça, como para fazê-la funcionar, a toalha de saco de farinha de trigo. Não estava gostando daquilo. Importante para um político, andar sempre com a memória em dia: guardar o nome do eleitor, o da patroa, se possível até o dos meninos.” Para combater o corrupto coronel Chico Belo, a União Cívica emprega meios pouco ortodoxos - peça-chave para o resultado da disputa, o cabo eleitoral Pé de Meia percorre os Confins cadastrando eleitores, ensinando-os a assinar o próprio nome e comprando seus votos. Os fins justificam os meios para Paulo.

     

     

    Embora seja um retrato do passado, a obra tem trechos incandescentes de tão atuais, especialmente no Brasil do presidencialismo de coalizão: “Antigamente era que adversário morria adversário; hoje, não: com essa balbúrdia de tanto partido, nenhum vence sem coligação. Veja como tudo tem mudado: nas eleições passadas, nós nos aliamos aos democratas para vencer os liberais; nas últimas, nos unimos aos liberais para derrotar os democratas; agora, o boato é que os democratas estão se aproximando dos liberais para acabarem com a gente”, explica Paulo a João Soares.

     


    Na tese “Nos Confins dos Chapadões Sertanejos: Pensamento Geográfico em Mário Palmério”, a mestre em geografia pela UFU Naiara Cristina Azevedo Vinaud analisa brevemente a atuação parlamentar do autor, localizando-o na mesma tradição de Graciliano Ramos, outro autor fundamental para o ideário do sertão, e que foi prefeito de Palmeira dos Índios, Alagoas, entre 1928 e 1930: “Os discursos de Mário Palmério na Câmara dos Deputados permitem vislumbrar um político combativo e destemido o bastante para dar voz às denúncias apresentadas por seus eleitores.

     

    O deputado reivindicava, tomava atitude diante dos fatos que considerava injustos, propunha articulações para promover reformas de bases a fim de que o estado de direito não tivesse de disfarçar suas fragilidades, voltando-as contra o sertão e seus habitantes, ou contra aqueles que, por ousarem discordar, eram rotulados de comunistas.”

     


    Em sua obra inspirada nos acontecimentos do fórum de Passos, Palmério pinta um panorama polifônico de como a política se insinua na vida do campo, sempre sob o signo da ambiguidade entre civilização e barbárie: as eleições, símbolo da democracia, suscitam o lado mais brutal do vilarejo. Se esse contraste é nítido na suja disputa eleitoral de “Vila dos Confins”, torna-se diluído em Chapadão do Bugre, de 1965.

     

     

    VILA DOS CONFINS - AUTOR: MÁRIO PALMÉRIO - EDITORA: AUTÊNTICA. 304 PÁGINAS. R$ 54,90
    CHAPADÃO DO BUGRE. AUTOR: MÁRIO PALMÉRIO. EDITORA: AUTÊNTICA. 416 PÁGINAS. R$ 59,80 

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