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    16/07/2019 08h37 - Atualizado em 16/07/2019

    O fim do mundo dos sonhos

    História, antropologia, literatura, química, biologia, arqueologia, psicologia e neurologia são alguns dos ramos empregados por Sidarta Ribeiro nessa obra , para mostrar como os sonhos foram encarados

    André Cáceres - Especial para a Folha

    Quando Gregor Samsa despertou de sonhos intranquilos, Franz Kafka mudou o rumo da literatura ocidental. No Oriente, também, o tema é relevante: o universo não passa de um sonho do deus Vishnu para os védicos, cuja religião antecedeu o hinduísmo. Se, conforme Buda, “a vida é sonho”, ainda não sabemos, mas seu xará, o neurocientista brasileiro Sidarta Ribeiro, desvenda como o mundo onírico influenciou todas as instâncias da vida em O Oráculo da Noite (Companhia das Letras).
    Hoje se sabe que o sonho é um fenômeno neurológico experimentado majoritariamente durante a fase REM (rapid eye movement, ou movimento rápido dos olhos) do sono, mas ele fascina a humanidade há séculos: “Ao longo da Idade Antiga, os sonhos eram claramente o centro da vida política”, afirma Ribeiro ao Aliás. “Tudo indica que, pelo menos 2.500 anos antes de Cristo, o sonho não era só uma simulação de comportamentos possíveis, mas um portal de comunicação com os deuses.”
    História, antropologia, literatura, química, biologia, arqueologia, psicologia e neurologia são alguns dos ramos empregados por Ribeiro nessa expedição caleidoscópica para mostrar como os sonhos foram encarados pela humanidade desde o Paleolítico Superior até a internet. “O sonho foi o cinema de nossos ancestrais, bem mais fascinante porque potencialmente real”, escreve ele ao especular sobre como os homens das cavernas viam esse fenômeno noturno. Ribeiro relata episódios em que governantes como Alexandre Magno, Júlio César ou Frederico, o Sábio, tomaram decisões que mudaram a história com base em sonhos. A arte, a filosofia e a ciência também foram beneficiadas pelos arroubos de criatividade despertados por sonhos de Shakespeare a Paul McCartney, passando pela escritora Mary Shelley, pelo filósofo Giordano Bruno e pelo matemático Gottfried Leibniz, entre muitos outros.
    Para além da cultura, entretanto, o sonho desempenhou um papel importante para a gênese da metafísica. Para Friedrich Nietzsche, “a decomposição em corpo e alma se relaciona à antiquíssima concepção do sonho, e igualmente a suposição de um simulacro corporal da alma, portanto a origem de toda crença nos espíritos e também, provavelmente da crença nos deuses”. O aspecto divino dos sonhos faz parte de textos fundadores como a Bíblia, o Corão, as narrativas homéricas, o Livro dos Mortos no Egito ou a Epopeia de Gilgamesh na Suméria. “Há cerca de 100 mil anos, a gente começou a enterrar os mortos. Aí se sonhava com alguém morto e a conclusão óbvia era que essa pessoa está viva em algum lugar”, explica o autor.
    Além de ajudar a fundar a espiritualidade, o mundo onírico foi fundamental para a ascensão da narrativa e o surgimento da linguagem na espécie humana, defende ele. “Mamíferos em geral se reúnem para dormir por proteção e calor, têm sono REM e sonham. Do ponto de vista fisiológico, bioquímico, não há diferença. O que aconteceu no ser humano foi a capacidade de despertar de manhã e narrar esse sonho”, diz o pesquisador. “Quando a gente cria esse espaço narrativo, você pode imaginar qualquer coisa sem consequências. Se eu te pedir para imaginar a Guerra de Troia ou o futuro em 2100, isso não tem nenhuma repercussão motora. É muito diferente do que os outros animais fazem. É a capacidade de sonhar acordado.”
    Ribeiro propõe que essa habilidade de projeção, exclusiva da raça humana, vem de uma invasão do sonho na vigília. É aí que está a chave para os sonhos supostamente preditivos. O autor mostra como as mesmas regiões cerebrais são ativadas quando recordamos o passado ou imaginamos o futuro. “Quando eu te conto o que vivi num mundo completamente particular, estou de fato criando um acesso ao passado que pode ser uma predição do futuro Se eu te contar o que aconteceu ontem, isso pode ser exatamente o que vai acontecer amanhã”, afirma.
    No livro, ele recorre ao conto A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges, para explicar essa capacidade probabilística de o sonho prever o futuro: “O inconsciente é a soma de todas as nossas memórias e de todas as suas combinações possíveis”, assim como a Biblioteca de Babel reuniria todas as combinações de letras possíveis. Portanto, “sonho é a possibilidade de imaginar os futuros em potencial por meio de um mecanismo capaz de prospectar a experiência pregressa e formar novos conglomerados psíquicos, juntando ideias antigas de forma nova.”
    Essa é uma das vantagens evolutivas de sonhar: simular cenários sem risco, tornando-nos melhores em atividades importantes, como caçar ou sobreviver. “A evidência empírica de que os sonhos ajudam você a se desempenhar melhor é recente e não muito grande, mas existe. Todos os mamíferos devem ter se beneficiado disso.”  

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