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    16/07/2019 08h19 - Atualizado em 16/07/2019

    Portugal: 48 horas no Porto

    Viagem a Portugal cabe perfeitamente em um final de semana como um stop over

    Silvia Reali e Heitor Reali - Especial para a Folha

     A visão aérea da Ponte da Arrábida semiencoberta por névoa dourada já era suficiente para justificar a viagem. Mas a razão principal de ter escolhido Porto, Portugal, para um stopover de 48 horas, foi a frase de José Saramago sobre outro escritor português: “Almeida Garret, mestre dos viajantes”. E eu encasquetei em conhecer a cidade onde nasceu Garret, autor de obras como Viagens na Minha Terra, do século 19.
     À beira do Rio Douro e com apenas 41 quilômetros quadrados, o Porto cabe perfeitamente em um fim de semana. Com voos diretos de São Paulo pela TAP, é possível ainda aproveitar a conexão na ida e na volta para curtir um pouco da cidade.
     Antes de tudo, devo deixar claro: não curto horários fixos, os assinalados servem apenas para inspirar seu roteiro, nada de guias turísticos e fujo das indicações imperdíveis. A viagem para mim segue conforme a inspiração, a curiosidade sobre o que li, o que me interessou, ou mesmo considerar algumas dicas dos próprios portuenses. E aí faço meu roteiro-jogo, um desafio entre o lugar e o viajante. Dei os meus lances a seguir.
    Dia 1 no Porto
     Nada como acordar com uma vista que revela a natureza do Porto e a luz ainda tímida que começa a dourar o Rio Douro. O Vila Galé Porto Ribeira (bit.ly/galeporto) é um hotel-butique que aproveitou quatro casas de pescadores já existentes no Cais das Pedras para construir um espaço elegante, mantendo as fachadas das antigas residências.
    Depois do café da manhã, saímos em direção à Livraria Lello, construída há mais de cem anos. Em estilo gótico português, é considerada das mais belas do mundo e aguçou a imaginação da escritora J. K. Rowling, assídua frequentadora do local durante os dois anos em que morou no Porto. A escadaria da Lello, um triunfo do art nouveau (movimento que dá ênfase a fantasia vertiginosa das espirais), a levou a criar a escada que se move na Escola de Magia de Hogwarts, na série Harry Potter.
    Em busca de lojinhas do centro histórico, me deparei com a mercearia A Pérola do Bolhão (Rua Formosa, 279), uma bolha de bom gosto para gourmands. Fundada há mais de cem anos, com bela fachada de azulejos que reproduz duas figuras orientais, seria hoje apenas mais um museuzinho não fossem os clientes que pela qualidade dos produtos e atendimento ali retornam diariamente. Embutidos artesanais, bacalhau, vinho do porto, queijos e a excelente orelheira fumada atraem compradores até de outros países.
    Por quem os sinos dobram no Porto? Ah! Que bela surpresa. Nesse espaço eles tocam anunciando que uma nova fornada de pastel de nata acaba de sair com três tons: moreno, claro e tostado. Uma marca de tradição de Portugal, a Manteigaria (doces), se uniu ao contemporâneo café Delta Q num único espaço, quase ao lado do Mercado do Bolhão. Percebi que ali o pastel difere do de Belém no recheio, um pouco mais cremoso. E, como me disseram, “cá no Porto não se polvilha canela”.
    Casa consagrada do Porto, desde 1887, a Claus (clausporto.com) é dedicada à perfumaria de luxo. Fica na Rua das Flores, via histórica repleta de lojas e restaurantes charmosos. Perca-se entre sabonetes, aromatizadores de ambiente e perfumes à base de sândalo, bergamota, alfazema, cravo, jasmim e fragrâncias raras. O mostruário sugere mais uma loja de doces ou chocolates, mas a gama dos aromas é atrativa, e foi impossível não sair de lá sem uma loção de barba e sabonetes – a caixa com oito custa 60 euros (R$ 260).
    A tradicional francesinha
    “Você não pode sair do Porto sem comer uma francesinha”, é o que todos dizem. O sanduíche, original da cidade, parece uma adaptação do croque-monsieur francês. Trata-se de uma bomba energética de 1.200 calorias: duas fatias de pão intercaladas com linguiça, bife, salsicha e fiambre, gratinadas com queijo e com um ovo estalado no topo. Há variações com frango, salame e outros embutidos. Comi o meu na Cervejaria Brasão (em média, 6,50 euros ou R$ 28). Para finalizar, pudim do Abade de Priscos, um aveludado ex-libris da doçaria portuguesa. Acompanhe o doce com uma cerveja amarga Ipa, artesanal; brasao.pt.
    Nesta caminhada, tinha de um lado, o Douro. De outro, a arquitetura medieval, com a Praça da Ribeira outros cartões-postais dos séculos 17 a 19. À frente, a monumental ponte metálica Luís I, e o movimento de entra e sai das tabernas instaladas nas reentrâncias da muralha. Mas foi um baixo-relevo em bronze – as Alminhas da Ponte, do escultor Teixeira Lopes, que me chamou a atenção. Trata-se de uma homenagem aos que morreram durante a invasão do Porto pelas tropas francesas a mando de Napoleão. Com o sol na cara e a alegria escancarada, paro para ouvir um artista ou para xeretar os antigos barcos rabelos, aqueles que ziguezagueavam pelo rio transportando tonéis do vinho do Porto. Hoje ancorados, não singram mais o Douro e mereciam dias melhores. Por falar em vinho, as caves estão do outro lado do rio, em Vila Nova de Gaia. Ou seja, o vinho do Porto não é do Porto...
    Depois de curtir o Cais, buscava algo diferente para o jantar. Alexandra Freitas, da Visit Porto & the North, indicou a Casa da Guripa, na praia de Angeiras, a 30 minutos do centro. Deliciosamente plantada à beira-mar, entre coloridas casinhas de pescadores, sargaços e maresia, o restaurante foi um achado. Sob o comando dos proprietários, Manoela, ela filha do mar, e do marido, filho de pescadores, a filosofia gastronômica da casa preconiza o consumo de ingredientes do mar ou da terra, mas com um caldo de cultura. A sugestão da casa foi um presente: da família dos moluscos veio um lingueirão à bulhão pato no vinho branco com coentro. Para acompanhar, sangria de frutas vermelhas com vinho verde espumante. Espere gastar cerca de 20 euros (R$ 87) por pessoa. 

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