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    10/07/2019 08h36 - Atualizado em 10/07/2019

    João extraiu a essência da música

    Depois de reinventar o samba de morro, João Gilberto virou do avesso a canção francesa, o musical da Broadway, o bolero...

    João Gabriel de Lima - Especial para a Folha

    Depois de um show dos tropicalistas, João Gilberto foi ao camarim. Caetano Veloso narrou o episódio numa entrevista, lembrando que, na ocasião, ficou apreensivo. Temia que o ídolo contido e minimalista detestasse a exuberância de cores no cenário e nos figurinos dos artistas. Segundo Caetano, João teria dito a ele algo como: “Cores, festas, balangandãs. Tenho tudo isso na minha voz”. Tinha mesmo.
    Em sua música, João Gilberto fez um resumo do que o Brasil tem de melhor. A despeito de poucas e honrosas exceções, não era compositor. Mas poucos compositores criaram tanto e tão radicalmente quanto ele. É um daqueles casos de artistas reconhecidos e festejados em vida – e, mais que isso, estudado, esmiuçado, dissecado por ensaístas e biógrafos. O jornalista Ruy Castro mostrou como, trancado no banheiro, João Gilberto inventou a batida da Bossa Nova. Essa forma solitária de criar, ressoando na acústica dos azulejos, ou sentado na cama de pijama, o acompanhou pela vida afora. O acadêmico Walter Garcia Junior, num livro essencial, “A Contradição Sem Conflito”, passou suas músicas para a partitura – e mostrou como o violão de João Gilberto é o resumo da percussão de uma escola de samba. Uma orquestra de surdos, agogôs, caixas e tamborins vibra sob seus dedos entre a prima e o bordão.
    João Gilberto resume também a tradição dos cantores brasileiros. Em suas primeiras gravações, como “crooner” do grupo Garotos da Lua, a voz dança no tempo, ora em fase, ora em defasagem. Tal procedimento era marca registrada de nosso maior popstar até então, Orlando Silva – de quem João era, explicitamente, um fã e seguidor. Nos Garotos da Lua, João se parece com Orlando, e em vários momentos ensaia um vozeirão que soa estranho para quem começou a ouvi-lo no sussurro de “Chega de Saudade”. Quando encontrou sua voz própria, João não era um rompimento com o estilo dos Carlos Galhardos e Franciscos Alves. Era, antes, um resumo das vozes dos que vieram antes dele.
    Ouvidos apressados já compararam João a Chet Baker e a Bossa Nova ao jazz americano. O canto sussurrado de João não vem de Chet Baker, nem as harmonias dissonantes da Bossa Nova vêm do jazz americano. A voz de João Gilberto, como se disse, está mais para Orlando Silva que para qualquer cantor de jazz americano. E, embora os precursores da Bossa Nova, como Dick Farney, fossem fãs da fase jazzística de Frank Sinatra, a música brasileira já havia descoberto as dissonâncias muito antes disso. Elas estavam nos acordes de Pixinguinha e no violão dedilhado por Garoto no Cassino da Urca, onde muitos ouviam harmonias do francês Claude Debussy. Ecos de Garoto, ou de Debussy, que posteriormente foram parar na música de Tom Jobim. Impressionismo francês, choro e bossa nova. Fecha-se um ciclo. Ou, melhor dizendo, abre-se outro.
    A música de João Gilberto resume o que de melhor existe no Brasil, mas não se limita às nossas fronteiras. Estão ali as cores e acordes da Tropicália, a batida dos sambas-enredo, a melodia fora do tempo dos cantores de vozeirão dos anos 40 e 50 – e muito, muito mais. João Gilberto buscou a essência da canção em diversos idiomas. João cantou de forma sublime em mau francês (Que Reste-t-il De Nos Amours, tema de um filme clássico de François Truffaut), inglês macarrônico (It’s wonderful), italiano de cantina (Estate). Globalizou-se muito antes de a palavra globalização ter sido inventada. Nos casos acima, aplicou sua bossa sobre a canção de musical da Broadway, a chanson francesa, a canzone italiana. No dia de sua morte, ressoa sua reinvenção radical de um bolero, “Eclipse”. O compasso quaternário se derrete ao sabor da emoção da letra e vira quase uma declamação: “Eclipse de luz en el cielo, ausencia de luz en el mar, muy solo com mi desconsuelo, mirando la noche mi puso a llorar”.
    Seis de julho marca a data da morte de um de nossos artistas essenciais. Eclipse de luz no céu numa tarde de sol no Brasil.

    “O gênio divisor de águas”
    No final do ano de 1958 passei umas férias numa cidade do interior de São Paulo. Circulando numa praça da cidade, ouvi dos autofalantes de uma loja a “não-voz” de um cantor que murmurava uma sofisticada melodia, com harmonias arrojadas, envolta num arranjo por demais econômico, cool, algo que nada tinha a ver com a música popular brasileira, submersa num atormentado vale de lágrimas na base do “ninguém-me-ama-ninguém-me-quer. Fiquei paralisado. Sai então atrás do disco e de todas as informações que tinham a ver com o grito silencioso daquele intérprete. Tempos depois, conversando com amigos, soube que todos, sem uma única exceção, lembram-se do momento exato em que ouviram pela primeira vez aquele Chega de Saudades de Jobim com letras de Vinicius na interpretação do Baiano-Bossa-Nova João Gilberto. Poucos meses depois saíram duas novas gravações - Desafinado e Samba de uma nota só - que fechavam um ciclo estilístico divisor de águas em nossa mais delicada música de câmara popular.
    As interpretações de João e as melodias de Jobim iriam influenciar uma enorme geração de intérpretes e compositores de boa formação, espraiando um estilo musical coloquial, sofisticado, jovem que iria substituir os arranjos melodolorosos do jargão “Oh mulher, estrela a refulgir” do antigo Vinicius pelo “ela é carioca, olha o jeitinho dela”.
    Em 1962 essa música se internacionalizava a partir de um show no Carnegie Hall de Nova York. Estilisticamente tinha tudo a ver com as artes de vanguarda da época. Com o cool jazz de Miles Davis, com o cinema Nouvelle Vague francês de poucas palavras, atores, cenários e movimentações de câmeras; com o rompimento da poesia com o verso, substituída pela Poesia Concreta de algumas poucas letras, silabas ou palavras esparsas no branco da página; com a arquitetura de Niemeyer, de linhas discretas e edifícios brancos sobre pilotis que pareciam flutuar; com a música dodecafônica que filtrava a música clássica de todos os conteúdos acumulados na história e deixava o som livre, leve e solto, formando um cristalino mosaico abstrato; tudo a ver também com a não menos abstrata pintura concretista, geométrica e econômica nascida no Brasil pelas mãos de Cordeiro, Fiaminghi, Saciloto, Lígia Clark e outros, espalhada depois internacionalmente por Vasarely.
    É curioso notar que, se a música popular americana importou em meados do século XX ritmos latinos, os mambos e cha-cha-chas lá chegavam para animar festinhas e bailes populares. Enquanto isso as canções da Bossa Nova, na voz de João Gilberto penetraram naquele país através da elite dos músicos de jazz até chegar ao maior cantor popular do século, Frank Sinatra. Lembre-se que o álbum de jazz mais vendido da história é Getz-Gilberto. E, quando perguntaram a Eric Clapton, o maior guitarrista do barulhento rock depois de Jimmi Hendrix, quem ele queria visitar quando veio ao Brasil, respondeu na lata: João Gilberto. E Leonard Feather não titubeou em assinalar na revista Down Beat – a bíblia do jazz – que em 40 anos ninguém influenciou mais o estilo jazzístico que João Gilberto. (Júlio Medaglia) 

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