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    01/07/2019 08h15 - Atualizado em 01/07/2019

    Sayuri Grillo, arquiteta

    "É importantíssimo que haja representatividade em toda a cidade"

    Nathália Araújo - Especial para a Folha

    Natural de Passos, a arquiteta e urbanista Silvia Sayuri Simosono Grillo foi uma das palestrantes na 3ª Exposição Nacional de Móveis Rústicos de Passos, e o tema abordado foi a relação entre a sociedade no meio urbano, o que ela acredita ser um assunto pertinente e de interesse de boa parte da comunidade. Graduada há três anos pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a UFRRJ, a profissional, que atuou por dois anos nos projetos da capital carioca, retornou à sua cidade natal e, aqui, está focada em desenvolver experiências que agreguem na sua carreira. Entre elas, está a Expo Móveis, que Sayuri acompanha desde a primeira edição. Junto às novas vivências, estudos, palestras e workshops, a arquiteta ainda oferece aulas gratuitas de física no cursinho pré-vestibular Educafro e é membro do Conselho da Cidade, que está elaborando o novo plano diretor.
     Sayuri carrega consigo a ideia de que o mundo seria um lugar melhor se existissem menos desigualdades e afirma que é por esse motivo que procura sempre contribuir positivamente na vida de outras pessoas.

    Folha da Manhã - Para você, o que a Exposição Nacional de Móveis Rústicos de Passos representa?

    Sayuri - A cidade de Passos tem sido referência quanto aos móveis rústicos, com reconhecimento regional e em diversos Estados do Brasil. É um evento que serve de vitrine para todos podermos acompanhar o trabalho dos moveleiros, ver de perto as inovações em seu design e sanar dúvidas diretamente com seus fornecedores. É um evento que traz visibilidade para nossa cidade e acessibilidade da população em acompanhar um forte ramo de produção local.

    FM - Qual é a sua sensação, como profissional, sabendo que Passos se tornou referência em móveis rústicos?

    Sayuri - Fico realmente feliz por conquistarem essa posição de referência. Aprecio bastante o esforço de toda a organização do evento e pela parceria com os arquitetos. Torço para que continuem a crescer.

    FM - Para você, como o evento influencia na economia passense?

    Sayuri - A visibilidade e divulgação do evento trazem consigo não apenas consumidores dos produtos em questão. Essas eventuais atrações proporcionam movimentação por nosso meio urbano. Além de ser um canal direto para que os turistas conheçam nossa cidade e descubram outros pontos de interesse.

    FM - E como pode ser benéfico para a população?

    Sayuri - Eventos como esse oferecem uma nova vivência para a população, normalmente de forma positiva. É importante acompanharmos o que está sendo executado e produzido em nossa cidade. Especificamente olhando para a indústria moveleira, acredito e espero que, da mesma forma que almeja-se o apoio por parte da população, a cidade também se beneficie com investimentos pelo crescimento da indústria. Talvez um exemplo disso, fato que me chamou a atenção, é que hoje temos lindos equipamentos urbanos como bancos e lixeiras de móveis rústicos que compõem a Avenida da Moda e áreas centrais da cidade. Não sei exatamente como foi estabelecida essa parceria, mas, parabéns aos envolvidos pela execução.

    FM - O tema da sua palestra, que aconteceu na manhã de sexta-feira na 3ª Expo Móveis Rústicos, foi “Utilização de Espaços Urbanos pela Sociedade”. Você acredita que a sociedade passense está utilizando bem o espaço urbano da cidade?

    Sayuri - Os espaços públicos, em sua maioria, não estão sendo bem utilizados. Na verdade, muitas áreas de lazer estão em estado de abandono. Mas não seria justo dizer que a sociedade passense não está utilizando bem essas áreas. Existe uma série de fatores que levam a população a abandonar áreas de interesse comum, começando pelo próprio planejamento da cidade. Generalizando, temos utilizado a cidade principalmente como função de circulação, que está longe de ser uma experiência agradável ou uma convivência social saudável.

    FM - Essa ocupação deve estar prevista na legislação municipal, por exemplo, no plano diretor?

    Sayuri - É importante que o plano diretor atenda e gere estratégias cabíveis para as demais carências da cidade.

    FM - O poder público municipal contratou a Fundação João Pinheiro para elaborar o plano diretor da cidade. Arquitetos e engenheiros temem que, por não ser uma instituição local e não conhecer o cotidiano da cidade, apresentem uma “receita pronta”, comum a outras comunidades. Passos corre esse risco?

    Sayuri - A princípio, não, não corre esse risco. Fico feliz que tenha levantado esse questionamento, principalmente sobre o medo real da “receita pronta”. Bom, como já comentei, fui integrada ao Conselho da Cidade para a elaboração do plano diretor, junto aos outros arquitetos, engenheiros e demais profissionais de diversas áreas da cidade de Passos. O trabalho do Conselho tem sido alinhado com a Fundação, e aponto que, neste início, em nossas reuniões, expressaram sempre essa preocupação quanto a atender às reais demandas da cidade, questionando e perguntando sobre aspectos físicos e sociais de nossa sociedade, em demonstração genuína de preocupação com o nosso meio urbano. Sinto não estar enganada por essas primeiras impressões e espero que consigamos todos executar um trabalho de excelência. Voltando à minha resposta inicial, digo que “a princípio, não”, porque temo a execução de um ponto crucial para que esse planejamento seja realmente viável para nossa cidade. Esse ponto é a participação plena da sociedade nesse planejamento.

    FM - Os profissionais da área estão participando desse trabalho? Como?

    Sayuri - Sim. Neste início, conforme cronograma, para cada tema abordado haverá uma comissão específica para elaborar as propostas, em conjunto com a Fundação, o qual será apresentado e discutido por todos do conselho.

    FM - Um dos grandes problemas de Passos e da maioria das cidades é que nem mesmo os agentes públicos respeitam esses planos diretores. Está faltando envolvimento da sociedade – especialmente de vereadores, associações de classe e autoridades do Judiciário – na fiscalização das normas preconizadas pela legislação?

    Sayuri - Sim, certamente. Penso que, enquanto tratarmos nossa cidade como uma “mercadoria”, estaremos “vendidos” a quaisquer interesseiros, independentemente a qual órgão pertençam.

    FM - Um de seus livros preferidos é “Morte e Vida das Grandes Cidades”, de Jane Jacobs, que questiona o planejamento urbano e critica a ocupação. Qual é a relação entre esse diagnóstico e a realidade de nossas cidades da região?

    Sayuri - Jane Jacobs, em sua obra, questiona o planejamento urbano agressivo, voltado principalmente para as questões socioeconômicas. Planos que priorizam carros, grandes avenidas, viadutos que atravessam a cidade sem pensar na escala humana. Ela defende o planejamento da cidade para as pessoas e reflete de forma concisa, pontual, relações sociais decorrentes de diversas ocupações urbanas. Nossas cidades da região, muitas até mesmo devido ao forte turismo que se estabeleceu, cresceram exponencialmente nos últimos tempos. Em sua maioria, seguiu-se o fluxo das necessidades mais claras, principalmente as que envolvem negócios. Veja bem, o desenvolvimento econômico de uma cidade é saudável e muito importante para que ela progrida e cresça. Mas esse crescimento sem um planejamento ideal, que atropela a população e seus interesses básicos, gera diversos pontos de conflitos na sociedade. Como se isso já não fosse suficientemente prejudicial a todos, a identidade local acaba sendo comprometida, também. Cidades que seriam “charmosas” por seus moradores e peculiares trejeitos, por sua comida típica ou por uma arquitetura cheia de história, são devastadas, demolidas em prol dos negócios. Quando se perde essa identidade local, parte de sua história é enterrada junto. Claro, é uma análise rápida que fiz agora, e também rasa, superficial sobre o que realmente acontece em nossas cidades regionais. Seria necessário um trabalho mais profundo e específico para cada uma delas, e assim obter um real diagnóstico. Interessante debater sobre isso, fiquei tentada a saber mais sobre nossas cidades (risos).

    FM - Algumas cidades do porte de Passos, no sul de Minas, apresentam áreas de convívio para a comunidade, como parques municipais e outros. Temos um parque municipal na região do Eldorado totalmente fechado ao público; a antiga praia de Passos, que era o porto do Glória, acabou depois da construção da ponte, as praças públicas estão abandonadas… Na sua opinião, por que existe essa deficiência na cidade?

    Sayuri - No caso dos parques e praças públicos, é triste ver o estado atual dessas áreas, uma vez que somos tão carentes de áreas de lazer. O abandono acontece em conjunto, tanto pelos órgãos públicos quanto pela própria população. As praças vão ficando sucateadas e a população passa a evitar esse espaço. Chega um ponto em que não há mais manutenção, tampouco interesse da sociedade pelo local. E como toda cidade dinâmica, muitos desses locais ocorrem algum tipo de ocupação, seja gangues, grupos, tribos, que irão ou não estipular suas próprias regras, que poderão ou não deixar outras pessoas utilizarem também o espaço, e que talvez até estabeleça alguma voz de comando no local. A questão é, o local fica à mercê para qualquer tipo de ocupação.
    Revitalizar essas áreas exige recursos, energia e determinação de todas as partes. E resolver esses pontos de conflito é bem mais complexo do que apenas tomar a área de volta e arrumar sua estrutura. Precisamos entender como se deu essa ocupação, qual sua finalidade, e, de repente, se cabível, pensar em como podemos atender a essa demanda, também. Um exemplo lindo na minha opinião sobre ocupação dos espaços urbanos é a utilização da avenida Sabiá pela população para fazer caminhada, passear com o cachorro, correr etc. Há também a ocupação do Piquenique da Estação, que é sensacional e de grande comoção popular. Já a antiga “praia” no Glória é um outro contexto. Na espera da balsa, formou-se um grande ponto de encontro por pessoas que buscavam lazer na região, o que era muito interessante para o comércio local, também. A ponte otimizou essa travessia, e todo esse contexto se perdeu. Vejo que é lamentável, porém, inevitável que uma mudança assim ocorresse logo.

    FM - Em 2015, você fez alguns estudos sobre Passos. Quais foram os temas abordados e suas avaliações?

    Sayuri - Fiz alguns estudos sobre a circulação urbana, a partir do sistema viário da época, e um mapeamento geral das áreas de lazer da cidade. A proposta do trabalho era atender a uma demanda de lazer com diversidade de atividades, melhorar os fluxos, aplicar estratégias e locar equipamentos urbanos que incentivassem usos alternativos como meio de transporte. Na época, e acredito que isso não deva ter mudado, Passos era muito dependente do veículo motorizado, ao ponto de utilizar o carro para andar dois quarteirões (risos). Em minhas avaliações finais, havia rasgado um complexo de ciclofaixas pela cidade, proposto reajuste nas linhas de ônibus para melhorar sua eficiência, criado zonas de lazer específicas para cada canto da cidade. Queria promover uma integração de bairros por meio de convívio e participação social. Mas a cidade mudou muito desde esse estudo para cá. Muitas das ideias precisariam ser totalmente reformuladas, pois temos outras demandas hoje. Nesses estudos, duas propostas que acredito ainda serem possíveis e positivas para Passos seriam um grande calçadão na rua Antônio Carlos, no centro, e uma extensa ciclofaixa pela Avenida da Moda.

    FM - Como você acha que Passos pode mudar de forma positiva?

    Sayuri - Com uma participação ativa de toda a população nas discussões e planejamento urbano da cidade. Gostaria de aproveitar o espaço e fazer um convite a toda a nossa população passense para participar ativamente da elaboração do plano diretor da cidade. Os bairros que já têm uma associação de moradores, coloquem essa questão em pauta em suas reuniões! Os bairros que ainda não têm uma associação, se organizem e criem uma para integrarem e representarem seu bairro nas discussões! Sabemos que cada bairro, cada região da cidade, tem suas características e peculiaridades, e apenas quem reside no local sabe exatamente, com mais exatidão, as demandas, necessidades e carências de sua área residencial. É importantíssimo que haja essa representatividade local em toda a cidade.

    FM - Se você pudesse alterar algo na cidade, o que seria?

    Sayuri - Arborizaria a cidade toda! (Risos)

     

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