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    26/06/2019 08h53 - Atualizado em 26/06/2019

    O mundo dos androides por McEwan

    Como em um jogo de espelhos, McEwan brinca o tempo todo com a dualidade humano-robô. personagem tenta persuadir um ser humano sobre sua consciência, como no teste proposto por Alan Turing

    O ano é 1982: a primeira-ministra Margaret Thatcher envia uma força expedicionária para reaver as Ilhas Malvinas. Na vida real, vence a guerra; no novo livro do romancista inglês Ian McEwan, as tropas são repelidas pelos argentinos com uma tecnologia balística baseada em algoritmos do matemático Alan Turing (1912-1954). Na vida real, Turing morreu precocemente; em Máquinas Como Eu (Companhia das Letras), ele viveu o bastante para pavimentar a construção de robôs quase indistinguíveis de seres humanos.
    Nesse 1982 alternativo, smartphones, internet e inteligências artificiais convivem com uma decepcionante turnê de reunião dos Beatles. “O presente é o mais frágil dos artefatos improváveis”, pensa o protagonista Charlie Friend. “Podia ser diferente. Qualquer parte dele, ou sua totalidade, podia ser outra coisa.”
    Acumulando fracassos, inculto, formado em antropologia, mas amante de eletrônica, Charlie leva (mal) a vida apostando na bolsa. Quando surge uma nova coqueluche tecnológica, ele usa o dinheiro de uma herança para comprar o androide Adão (as ginoides Eva já estavam esgotadas), aquisição que acaba servindo para aproximá-lo da vizinha de cima, Miranda, por quem se apaixona e com quem divide a criação do robô.
    Como em um jogo de espelhos, McEwan brinca o tempo todo com a dualidade humano-robô. Por vezes, o relacionamento de Charlie e Miranda é tão frio e artificial que eles parecem as máquinas, enquanto o fascínio infantil de Adão pela arte, ciência e filosofia é tão genuíno que ele soa muito mais real. Quando os três visitam o pai de Miranda, ele pensa que o oco Charlie é o robô e passa a entabular uma profunda discussão sobre Shakespeare com o erudito Adão.
    O Teste de Turing, desenvolvido em 1950 para determinar a capacidade de uma máquina de se passar por um humano, conduz à proposição de que, se um robô é indistinguível de um ser consciente, deve ser tratado como tal. Os dilemas morais derivados daí começam a se insinuar quando Miranda “trai” Charlie com Adão: “Minha situação tinha um aspecto excitante, não apenas de subterfúgio e descoberta, mas de originalidade, de precedência moderna, de ser o primeiro homem corneado por um artefato”, confessa Charlie para si. Máquinas Como Eu vem sendo rotulado como um triângulo amoroso, mas é muito mais que isso. Subjacente a essa trama, o passado de Miranda retorna para acossar o trio: ela teria dado falso testemunho em um tribunal. É possível que o leitor considere que seu crime foi cometido por uma razão justa, mas Adão segue um código moral muito mais rígido e, talvez, assustadoramente, melhor que o nosso. E é justamente nessa dissonância moral que reside a tensão do romance.
    Autor de dezenas de histórias sobre o tema, Isaac Asimov (cujas leis da robótica são citadas no livro, embora burladas quando Charlie tenta desligar Adão, que quebra seu pulso) mostrou o lado sombrio do convívio com robôs, como a mecanização do trabalho, em As Cavernas de Aço (1953). Mas, assim como McEwan, Asimov vislumbrou as máquinas como seres potencialmente mais sábios para tomar decisões do que humanos em contos como Evidência (1946) e O Conflito Evitável (1950), incluídos na coletânea Eu, Robô. Já Philip K. Dick, em Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? (1968), partiu para um questionamento menos social e mais existencial com seus perturbadores replicantes, capazes de se misturar na sociedade e borrar as fronteiras entre orgânico e mecânico, colocando em xeque a condição humana. Em Dick, qualquer um pode ser um robô. O incipit do conto A Formiga Elétrica (1969) resume o assombro de sua obra: “O que você sentiria, depois de pensar que era homem, se um belo dia acordasse e descobrisse que tinha virado robô?”
    No livro de McEwan, o incômodo está em se deparar com uma versão melhorada de si. Adão compõe haicais, filosofa sobre a vida e a morte, e ainda detém um senso moral muito mais apurado que os falhos Charlie e Miranda. Esse é o cerne de Máquinas Como Eu: em um mundo no qual delegamos cada vez mais decisões morais às inteligências artificiais, devemos acatar passivamente a dependência cada vez maior da humanidade em relação às máquinas? O último poema de Adão soa como um vaticínio: “É sobre máquinas como eu e gente como vocês, e nosso futuro juntos… a tristeza que está por vir.”

    Máquinas Como Eu’.
    Autor: Ian McEwan.
    Editoria: Companhia das Letras. 328 página R$ 54,90

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