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    15/06/2019 09h44 - Atualizado em 15/06/2019

    Dia a Dia: Xô, Satanás!

    Adelmo Soares Leonel - Especial para a Folha

    O Vale do Rio Jequitinhonha, nordeste mineiro, é uma das regiões mais miseráveis do Brasil onde o poder e o dinheiro se concentram nas mãos de uns poucos coronéis em seus enormes e improdutivos feudos. O resto é pobreza pura, gente manobrada nas épocas eleitorais para a continuidade do sistema e largada à própria sorte nos anos seguintes. Uma figura se faz presente ainda, braço executor dos coronéis: o jagunço.
     Bão.
     Existia por lá um desses jagunços afamados por mais de cem estrias riscadas no cabo do 45, sinalizando como cruz em beira de estrada quantos tinham passado para o lado de lá, empurrados pelo ribombeio do trabuco. De pouquíssima conversa, o José era conhecido significativamente por Zé Boamorte, um brutamontes do tamanho da cabeça do cavalo campolina, presente do patrão agradecido depois de um servicinho. Ninguém ousava um nadica de nada na presença (nem na ausência) do jagunço, cercado constantemente de um silêncio respeitoso e fúnebre por onde passava. Os olhos frios como o chumbo das balas jamais eram encarados de frente, mesmo pelos mais velhos do que seus trinta e poucos anos. Ganhara mais de uma dezena de apostas com seu “assistente” Joaquim Querosene (“mania de tacá fogo nos morto”) sobre para que lado seria o tombo do atirado.
     Um belo dia, foi o Zé numa visitinha à casa da mãe na cidade. Ressabiou-se com a movimentação e a cantoria na sala e na varandinha entupida de gente. Não sabia ele que sua mãezinha havia se convertido à uma seita evangélica, congregada ali naquele instante para os louvores de agradecimento à mais nova iniciada. Com menos de três esbarrões, o Zé chegou até ela. O quadro lhe calou fundo na alma: olhos voltados para cima, em êstase, um sorriso aberto na boca meio desdentada, braços levantados em V e gritando vivas a Jesus, lá estava a mãezinha querida do coração chamando-o também para assumir a felicidade como ela de ser crente. Zé Boamorte baqueou! Os olhos se anuviaram, o joelho envergou e ele caiu abraçando a longa saia da mãe. “-Qui nem o aposte Paulo nas porta de Damasco!”
     A cantoria avolumou o tom e o côro de crentes engrossou com o “milagre” ali ocorrido e espalhado como “rastio de porva” na pequena cidade. Até o pessoal de outras religiões acorreu empurrado pela curiosidade da suprema estranheza relatada.
     E era verdade!
     O jagunço espatifou o revólver no machado, lançou o embornal de munição na privada de fossa, o punhal e os demais apetrechos da antiga profissão. O batismo foi providenciado imediatamente, com o medo da recaída e ele exigiu ser chamado agora de José Boa Nova. O próprio coronel veio confirmar a notícia e dali mesmo deixou o recado que ele continuava seu protegido apesar de ter abandonado a matança e ai de quem lhe encostasse um dedo!
     No dia seguinte, a transformação se completou: arrumaram-lhe um terno preto apertadinho, curtinho praquele tamhanhão todo e, debaixo do braço, a nova companheira de todas as ocasiões - uma grande bíblia.
     - Quero sê pastor!
     Os velhos temores impediram seus pares de contrariar sua falta de paciência. Fez um curso intensivo com a mãe e uma amiga dela sobre o Novo e Antigo Testamento com as dificuldades naturais de quem soletrava malemá o próprio nome, compreendendo à sua maneira matuta as histórias ali contadas. Prá ele epístola era mulher do apóstolo qui nem Sadamo e Gamorra! Judas Carioca e Livro dos Ébrios em vez de Hebreus!
     A euforia de converter a todos fê-lo ir em busca do Joaquim Querosene. O susto foi demais! O ex-companheiro ouviu dois dias de pregação e, também pressionado pelos antigos medos, aceitou participar dos cultos pelo menos nas noites de sábado. Despediram-se com a acordo fechado. A mulher, pura cascavel, bateu o pé contra. Afinal, ela jamais aceitara a condição de chefia do Zé sobre o Quinca e agora que ele estava manso “num carecia mais de obedecê suas orde”.
     Sábado, o Joaquim não compareceu ao culto e uma nervosia esquisita baixou no Zé que já tinha anunciado sua mais recente conversão e agora podia passar por mentiroso.
     Domingo, cedinho, baixou na casa do Joaquim.
     - Cum efeito, Quim. Esperemo ocê inté tardão. Isqueceu o trato?
     - É a muié, cumpade. Esperniô iguale birra de minino... iscondeu as butina...cortô minhas carça...
     Nisso, veio o berreiro lá da cozinha:
     - Manda esse home imbora, Quinca. Num quero sabê de crente zucrinano a vida da gente!
     - Ai Jesus! É oprimissão do capeta Tranca-Rua! Caso brabo! Fica quetim aí qui vô lá dentro rezá mode ele i imbora!
     E sumiu no rumo da cozinha.
     O coitado do Joaquim só escutava sem reação a barulhada de panela esborrachando nas paredes e o espocar de tapas:
     - Sai Satanás! Vorta pros inferno ardente!
     E pá... e paf...e tum...e zap...
     Até silenciar tudo foi perto de uma hora de exorcismo.
    - Vem ajudá na reza, Quim.
    O Joaquim deparou com o Zé ajoelhado diante da patroa escornada no chão, coberta de manchas arroxeadas, toda torta e descabelada.
    - Acho qui ela tá curada mais percisano é só chamá.
    Sábado seguinte, na primeira fila lá estava o agora chamado Joaquim da Baleia de Jonas (‘ieu vivia no iscuro da barriga dos pecado”explicava) entoando hinos.
    Tudo corria bem até que, certa vez, a mulher ameaçou de implicar.
    - Ô capeta pedernido! Tretô e relô, ocê vorta, diabo? Peraí qui vô buscá o cumpade Zé!
    A voz veio fininha:
    - Pó dexá, Quinca! Num carece qui já tô boa. Curadinha!
     

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