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    18/05/2019 10h33 - Atualizado em 18/05/2019

    Dia a Dia: Sinuca de bico

    Adelino Soares Leonel

    Ainda rapazote, morava eu numa república estudantil de Alfenas, perto da Faculdade de Odontologia e ao lado dum salão de bilhar. No lazer permitido pelos estudos, ajuntávamos a turminha em volta da mesa de sinuca apostanto apenas o prazer da gozação nos perdedores. Identifiquei-me de imediato com o taco e uma incrível pontaria de encaçapamento, até então desconhecida, o que despertou a atenção de outros jogadores do salão e até do proprietário. Daí foi um pulo para que ele me fizesse uma proposta, assanhando meus bolsos furados por uma mesadinha mixuruca:
     - Ô rapaz, venha cá. Eu tenho alguns fregueses aqui, à noite, que gostam de jogar valendo uma graninha. Se você jogar prá mim, eu caso seu dinheiro contra o deles e você leva 30% do lucro. Se perder, o prejuizo é meu. Topa?
     Topei no ato.
     Como eu não conhecia a malandragem do negócio, fui obrigado a prestar atenção e decorar uma série de piscadelas, caretas e acenos discretos, à distância, do proprietário atrás do balcão, me indicando este ou aquele pato ao qual logo propunha umas partidinhas de dez pratas. A piscada com o ôlho esquerdo significava que havia otário no pedaço e o gargalo da garrafa manuseada apontava sua direção. Coçar a cabeça, me orientava a subir a aposta e o balançar de cabeça, para amolecer um pouco o jôgo, animando o parceiro a mais partidas. O bico me proporcionou uma complementação financeira razoável numas três noites semanais e tinha ocasião, quando ali chegava um fazendeiro mais graúdo, que o patrão me buscava em casa para depená-lo.
     Nunca me faltava adversário, pois é interessante este pessoal que perde, lança a culpa no azar e pede revanche, conhecendo derrota após derrota, sem se conformar.
     Me foi reservado um taco americano escamoteável, cheio de firulas e pesinhos e só usava giz inglês. Virei um Romário da sinuca e, como êle, mascarei também, menosprezando os outros e tirando-lhes a concentração, o que me facilitava ainda mais as vitórias. Já era obrigado a dar dez ou vinte pontos de vantagem se quisesse manter alguns parceiros, o que eu fazia com desdém.
     Certa noite, encantuei um comerciante e já lhe tomara umas sessenta pratas na maior moleza e êle numa brabeza danada, insistia em continuar. O segrêdo do jogo é não perder a serenidade porque a auto-confiança vai pro espaço e aí babau. Estava tão desinteressante e fácil a disputa que comecei a manjar uma melhor de três na mesa vizinha. De um lado, um freguês de carteirinha ao qual eu já massacrara várias ocasiões e do outro, um desconhecido que, pela calça de tergal preta ensebada e camisa branca de mangas arregaçadas, paletó descansando nas costas da cadeira ladeado por uma pasta, parecia um viajante comercial. O joguinho deles ia pau a pau, com mais êrros que acêrtos, até que o tal vendedor, num lance de pura sorte, ganhou a negra, demonstrando uma alegria desproporcional à mediocridade de seu potencial. Achegou-se até o balcão e “insultou” o proprietário:
     - Cuméquié! Não tem aí no salão um que ouse me enfrentar em dez partidas valendo cem mangos cada e dinheiro casado?
     Sacou milinho do bolso e atirou no balcão. Pra que? Levantei as orelhas, liquidei de vez o comerciante que abandonou a mesa, xingando, e fui chamado pelo proprietário com piscadas dos dois olhos e um esfregar de mãos satisfeito pelo lucro certo que nos caía do céu. Me enfiou a grana no bolso, despistadamente, que foi casada e colocada dentro de uma das caçapas de minha mesa preferida, a qual eu conhecia todas as reentrâncias, tabelas e descaídas. Ginguei o andar, brinquei com o maluco oponente, usando meu método de desconcentração, aprontei as bolas nas pintas e dei a saída para mais uma missão depenativa. A moçada do salão interrompeu seus jogos e cercou nossa mesa para sapear, sabedora dos valores altos da aposta.
     Foi a noite da esparrela! E o otário fui eu ( e o patrão)! O cara destampou a matar bolas como eu nunca tinha imaginado, me encalacrando direitinho! Com três tacadas, ele fechou a primeira. Ainda pensei em encará-lo. Tomei uma água gelada, me empertiguei, fiz minha oraçãozinha a São Estanislau, tirei um peso do taco, caprichei no engizamento da cabeça e ... perdi a segunda! A terceira, me ganhou já fazendo gracinha. Antes da quarta, o proprietário botou a palma da mão suada no pano da mesa e propôs, disposto a diminuir o prejuizo:
     -Vamos fazer o seguinte, ô moço! Você ganhou trezentos. Leva mais duzentos sem jogar e paramos por aqui.
     Um murmúrio de desaprovação correu pela sapaiada e o malandro retrucou:
     - Trato é trato. Ninguém encosta na caçapa do dinheiro enquanto não terminar a décima partida.
     A turma aplaudiu nossa sentença de morte, vingando da minha empáfia.
     Foram os minutos mais longos e humilhantes de minha vida, segurando o taco e assistindo o cara bola a bola, partida após partida.
     Assim se encerrou minha brilhante, promissora e fugaz carreira de sinuqueiro e fui tentar o futebol que tinha menos sacanagem!

     

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