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    17/05/2019 08h58 - Atualizado em 17/05/2019

    Dia a Dia: O hotel - Parte I

    Maria Mineira - Especial para a Folha

    Desci a escadaria do prédio carregando uma pequena mala e meu material de trabalho. A viagem não seria muito longa, mesmo assim hesitei um pouco quanto a aceitar aquele serviço. Meu auxiliar avisou de última hora sobre uma gripe que o impediria de acompanhar-me. Tudo bem, imprevistos acontecem. A ideia era chegar até uma pequena cidade, a fim de registrar um casamento, para o qual havia sido contratada. Tudo correndo bem, em dois dias estaria de volta. Liguei o carro e peguei a estrada rumo ao Sul de Minas,
    Estranhamente, não queria ir. Meu desejo era ficar em casa com meus livros, filmes, o velho pijama de flanela, as frustrações e sombras causadas pelo fim do relacionamento de dez anos. Porém, lembrei de minha conta bancária. Ela não estava propícia a recusar a quantia que me foi oferecida. As famílias dos noivos fizeram questão, queriam a melhor fotógrafa de eventos, modéstia à parte, claro! Nem reclamaram quando dobrei o preço, alegando a distância e as estradas mal conservadas. O jeito foi encher-me de coragem e seguir rumo ao desconhecido... Nos meus planos, não gastaria mais que cinco horas de viagem, mas a certa altura, o GPS me fez enveredar por rumos diferentes do previsto anteriormente. Irritada, praguejei em voz alta:
    — Grande coisa essa tecnologia, talvez uma bússola tivesse me ajudado mais!
    Escureceu antes do esperado e, sinceramente, nunca gostei de dirigir à noite. A estrada de terra me causava medo, pois era ladeada por matas fechadas. Para piorar, a lua cheia que iluminaria a noite daquela sexta-feira, estava envolta por nuvens pesadas. O único clarão era dos relâmpagos que cortavam o céu, seguidos por trovões assustadores. Logo, a chuva caiu pesada sobre o para-brisa.
    Senti-me sufocada ao fechar totalmente a janela do carro, mas o vento frio parecia assobiar no meu ouvido, me causando arrepios. À minha frente, apenas o solitário caminho sem asfalto. Me desesperar nessa hora não adiantaria em nada, mas confesso que meus nervos estavam em frangalhos. À medida que eu avançava, a cerração envolvia o automóvel, tirando totalmente a visibilidade. Olhei os ponteiros do tanque de combustível — graças a Deus havia me lembrado de abastecer na última cidade. Eu nunca havia me sentindo tão sem rumo. Me vi perdida no meio da noite, dirigindo numa estrada coberta pela lama, debaixo de uma tempestade. Para piorar, o maldito celular continuava totalmente sem sinal. Mesmo impedida pela neblina, eu adivinhava as ribanceiras, pois via árvores e morros na claridade dos raios.
    Há tempos não rezava, mas a angústia causada pelos trovões, automaticamente, me fez recitar antigos cânticos e orações aprendidos com as avós — segundo elas, era o único recurso para abrandar tempestades e ventos. Em dado momento, pensei que minhas vistas me pregavam uma peça. Vi uma placa apontando para um desvio, na qual estava escrito: “Hotel Pena Branca: 1 km.” Senti que minhas preces poderiam ter sido atendidas. Eu não tinha outra opção, mesmo que quisesse. Precisava de um abrigo para passar a noite e me livrar da escuridão e da chuva. Manobrei o carro na direção indicada. O temporal cessou, o mato sombrio, o vento sibilante e o canto das aves de mau agouro desapareceram como que por encanto.
    Notei que a estrada era margeada por belas palmeiras de um lado e ipês de outro. Avistei no alto da colina uma grande construção toda iluminada. Tudo se tornava mais claro, havia luzes por todo percurso. A neblina densa e o vento forte deram lugar a uma brisa fria, porém branda.
    No final da alameda, avistei o hotel. Mesmo sob efeito dos sustos recentes, ainda me questionei interiormente: como um lugar inóspito feito aquele, comportava tamanho empreendimento? Mas naquela hora, isso não vinha ao caso! Eu precisava respirar, beber algo, me acalmar! Estacionei no lugar indicado através de aceno, por um jovem uniformizado que se retirou em seguida. Desci do carro ainda sentindo as pernas bambas e as mãos trêmulas. O sereno caía sobre as roseiras de um canteiro deixando as flores salpicadas de gotas douradas sob a luz. O ruído de uma fonte luminosa, o aroma agradável de jasmins e alfazemas me acalmavam lentamente...
    Era mês de agosto e a noite estava fria. Peguei minha bagagem — apenas uma maleta com algumas roupas e a bolsa. Olhei para os lados, procurando alguém que pudesse me dar informações. Comecei a caminhar em direção à entrada principal. Ouvi o som de passos e parei, mas o coração se acelerou. Percebi uma presença, mas não consegui ver nada. Uma mão quente pousou sobre meu ombro descoberto. Um arrepio percorreu todo o meu corpo. Aquele toque em minha pele foi tão intenso, como se vestígios de um passado desconhecido se desvendassem através dos tempos e se acomodassem no interior da minha alma. Em seguida, algo extremamente macio e aconchegante deslizou sobre minhas costas, era um xale de seda. Nesse instante, ouvi uma voz masculina.
    — “Bonsoir, mademoiselle, bienvenue!”. Je m’appelle Antoine de Saint-Hilaire. S’il te plaît, viens avec moi! (*)
    Era um homem alto, de meia-idade. Tinha cabelos escuros, ligeiramente grisalhos e usava um elegante terno preto. Tinha um olhar intenso e profundo, de esfinge encantadora, capaz de intimidar, mas, ao mesmo tempo, derramar uma sensação de paz e segurança. Ele pegou a mala com uma mão e com a outra segurou meu braço. Sem mais, pegou a mala com uma mão e com a outra segurou meu braço. Pensei dizer que conseguia caminhar sozinha, mas a sensação de calor emanada de sua mão, era tão reconfortante que me fez calar e apenas sentir.
    Em silêncio, subimos as escadas e nos aproximamos da porta de madeira que se abriu lentamente. Ouvi o som de lenha se queimando na lareira localizada em um canto da sala bem decorada e espaçosa. Aquele cavalheiro parecia ter saído dos meus livros antigos. Me fez uma reverência, deu ordens ao rapaz de uniforme para levar a bagagem e uma moça magra e de olhos arregalados se encarregou de levar-me aos meus aposentos. A decoração era luxuosa e ali reinava uma atmosfera quase irreal, tanto nas cores dos lençóis, no bordado das toalhas, nas rosas que decoravam a mesa. Tudo parecia de um outro tempo e lugar. Mentalmente saudei o bom gosto do decorador.
    A camareira não disse palavra, dirigiu-me apenas um ligeiro sorriso de cumprimento ao sair do quarto. Averiguei o local e logo percebi que uma das portas levava a um ambiente onde havia armários decorados com vitrais floridos, velas perfumadas, essências diversas e um roupão branco bordado no mesmo padrão das toalhas. A grande banheira com diversas torneiras douradas, era tudo que eu precisava, após aquele susto na estrada! Derramei alguns sais perfumados na água quente... Me despi não apenas das roupas, mas de todos os sustos daquele dia, mergulhando num mar de paz por um tempo infinito, enquanto lá fora a chuva e o vento retornaram insistentes.
    Eu secava os cabelos quando ouvi do outro lado da porta, uma voz suave avisando que o jantar estava servido. Usando meu vestido vermelho de festa, desci os degraus e fui saudada pelo mesmo homem de terno preto que havia me recepcionado quando cheguei. Me olhou minuciosamente e percebi naqueles olhos algo mais que a simples delicadeza de anfitrião. Conduziu-me até a mesa no centro da sala. Afastou a cadeira e depois sentou-se também. Estranhei a falta de outros hóspedes para o jantar, mas não me preocupei muito, talvez fosse baixa temporada. O ambiente era atípico, mas maravilhosamente aconchegante! Com muita fome experimentei cada um dos pratos servidos. (Continua na próxima semana)
    * Tradução: Boa noite, mademoiselle, seja bem vinda!”. Meu nome é Antoine de Saint Hilaire. Por favor, venha comigo.

    MARIA MINEIRA é autora de “Ao Pé da Serra- Contos e Causos da Canastra”. E-mail:mariamineira2011@yahoo.com.br 

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