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    17/05/2019 08h57 - Atualizado em 17/05/2019

    Da danada da cachaça: Havana

    DESPREZAMOS LIÇÕES VALIOSAS QUE TEMOS NA NOSSA HISTÓRIA

    Stefan Salej
    Um dos produtos mais conhecidos entre os duzentos milhões de brasileiros é a danada da cachaça mineira. E entre marcas de quase dez mil estabelecimentos que produzem cachaça artesanal com aproximadamente 200 mil pessoas (acrescidas de mais 400 mil dos chamados empregos indiretos) em  Minas Gerais, a campeã é a Havana de Salinas.  A cachaça que expõe sua qualidade de maturação de 12 anos em barris de bálsamo também tem o preço mais elevado entre todas as marcas oferecidas. Com 75  anos de produção contínua num lugar que pouca gente conhece, longe de tudo, é sem dúvida a marca mais conhecida ou brand, como dizem hoje, de Minas no Brasil. E mais respeitada.
    Explicar essa história, descrita já tantas vezes, é nas verdade explicar o que realmente é um empreendedor mineiro. Anísio Santiago, que foi o fundador, e os filhos dele, assim como os netos, seguem princípios simples de gestão: sempre produzir com qualidade, sem ambição de ganhar muito dinheiro mas sem perder no negócio, e deixar todo mundo feliz. Começando com  apreciadores do produto, funcionários, comunidade. E não pode errar porque, como diz o filho do fundador, o Sr. Geraldo Santiago, se uma garrafa for de qualidade ruim você joga fora toda a história de 75 anos.
    A produção e distribuição da cachaça artesanal mineira é uma verdadeira teimosia de alguns aficionados que criaram a Ampaq, associação de produtores de aguardente de qualidade, que controla a marca e só fez parte de um projeto integrado de desenvolvimento de Minas no final do ano 2000, quando a Fiemg fez o projeto Cresce Minas. Esse projeto previa o desenvolvimento do estado através de clusters e precisava de, além daqueles de alta tecnologia, como eletrônica, metal mecânico, carne vermelha, também dos que criavam emprego e tinham raiz não no investimento fora do estado ou nos generosos incentivos estaduais, mas na cultura e empreendedorismo mineiro. Aí nasceu o cluster da cachaça e o do pão de queijo.
    Nesta hora em que temos na nossa frente desafios de desenvolvimento e de criação emprego que grandes investimentos em mineração e indústria não estão criando, vale a pena ver o exemplo singelo da cachaça  mineira e da Havana. Como alguém tão distante do mundo chamado desenvolvido conseguiu sobreviver 75 anos e criar uma marca tão apreciada e respeitada.
    Os novos planos de desenvolvimento com investimentos de 50 bilhões  de reais nos próximos anos nas área de infra-estrutura, saúde, habitação e saneamento são necessários, mas não vão criar os empregos que o cluster da cachaça cria hoje. Além de 50 % desse investimento vir do governo, os produtos  oriundos da cultura empreendedora mineira, em geral vindos da área rural e do interior do estado, criam empregos, solidez financeira, continuidade e não dependem de governo, quebrado ou não.
    A admirável saga do Anísio Santiago e seu herdeiros deve servir para uma reflexão sobre o nosso desenvolvimento. Estamos obcecados em procurar soluções grandiosas fora e desprezamos lições valiosas que temos na nossa história. Menos grandeza, mais humildade, menos Torino e mais Salinas. Menos nomes bombásticos de planos e mais realidade.
     
    STEFAN SALEJ, ex-presidente do Sebrae Minas e da Fiemg, vice-presidente do Conselho do Comercio Exterior da Fiesp. Coordenador adjunto do Gacint - Grupo de análise da conjuntura internacional da USP.

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