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    06/05/2019 08h23 - Atualizado em 06/05/2019

    Gilda Maria Parente, professora e atriz

    "É uma honra ser homenageada pelo 3º FNTPassos"

    Adriana Dias (Colaborou Rafaela Medolago) - Da Redação

    Gilda Maria Parente nasceu em Passos, em 1941, quando seus pais Estevam Parente e Maria Santana Parente se mudaram para cá. Seu pai veio atrás de um trabalho e por aqui ficou, depois de várias mudanças que eles já tinham feito em outros lugares como São Tomás de Aquino, São Sebastião do Paraíso e Altinópolis. Gilda é de uma família de dez irmãos. Estudou em Passos até o curso Normal (Magistério) quando se mudou para Belo Horizonte, numa época em que a mulher não podia sair ou pelo menos as mulheres eram muito censuradas a sair para estudar fora. Ela fez o curso de Letras e se recorda que algumas pessoas foram atrás de seu pai o questionando como ele deixava sua filha estudar na capital. À época, Gilda foi passar férias, mas com a intenção de estudar. A passense cursou Letras e sempre se dedicou às artes, ao teatro, principalmente. Fazia peças teatrais no Colégio Imaculada Conceição e, em 1958, ela foi convidada por José Pimenta, o Zezé Pimenta, a fazer uma peça, a “Comédia do Coração” e nessa peça trabalhou Vivaldo Piotto, Zininha Negrão, pessoas que depois vieram a fazer parte do teatro em Passos. A organização do 3º Festival Nacional de Teatro de Passos escolheu Gilda como homenageada desta edição e, para falar um pouco sobre sua trajetória no teatro, a reportagem do Entre Prosas a ouviu em sua casa.

    Folha da Manhã – Como foi a sua primeira relação com o teatro?
    Gilda - Eu fui levada ao teatro muito pequena, segundo meus pais e irmãos. Com apenas 5 anos, eu fui ao Colégio das Irmãs, o Colégio Imaculada Conceição (CIC), onde já tinha número de teatro. E daí eu era chamada para fazer uma coisa ou outra. Como naquela época não tinha muita diversão, a gente brincava na rua, ia à matinê aos domingos, não tinha nada, não tinha TV. O que era a nossa diversão? A gente estudava de manhã e, à tarde, voltava ao colégio, que era nosso ponto de apoio, onde organizava festas, fazia pecinhas de teatro com as crianças. E eu fui fazendo essas peças, então fiz comédia, textos de vida de santo. Até que, com 17 anos, estava cursando o segundo ano do Magistério, em 1958, quando o José Pimenta, Zezé Pimenta, me convidou para fazer uma peça, e nós fomos fazer a “Comédia do Coração” e nessa peça trabalhou Vivaldo Piotto, Zininha Negrão, pessoas que depois vieram a fazer parte do teatro em Passos. O caminho da cultura passa pela escola. Agradeço imensamente pela homenagem que o FNTPassos está fazendo a mim. Com certeza, tem muita gente boa para ser homenageada. Mas fico grata pela deferência e atribuo tudo à escola.

    FM - A “Comédia do Coração” era do Grupo Alfa de teatro?
    Gilda - Não, ainda não era o Alfa. Fizemos essa peça. Foi muito bom, eu me senti uma estrela, porque nunca tinha participado em algo desse tipo, e a peça foi apresentada dentro do salão do Colégio Imaculada Conceição (CIC). Na verdade, era o lugar mais propício para isso. Depois, o Zezé Pimenta quis fazer outra peça com a gente, era tão interessante, e papai deixou, ele achava o máximo eu participar dessas coisas, mas falava ao Zezé: “Olha, tem que levá-la em casa para mim, porque ela não pode ir sozinha”, aqueles cuidados que você acaba traduzindo em carinho. Depois disso, eu fui para Belo Horizonte, onde quis fazer teatro, mas uma professora de italiano falou: “Não vai mexer, não, o ambiente de teatro aqui é muito pesado”, eu acabei não fazendo. Quando eu voltei para Passos, comecei a trabalhar. A gente organizava alguma coisa no colégio estadual, mas, em 1972, Gustavo Lemos chegou em casa e pediu que o ajudasse a fazer a peça “Santos”; ele montou esse texto a partir de uma missa leiga que ele viu em São Paulo. Foi aí que começou o grupo Alfa, quer dizer, o Antônio Theodoro Grilo apareceu lá um dia. Ele não fazia parte inicialmente, olha o time que era dessa época: Rita Carvalho, Zininha Negrão, Arlete Porto, Reinaldo Barbosa, Silas Figueiredo, Vivaldo Piotto, e nós todos estávamos fazendo esse trabalho. Foi justamente Grilo quem deu o toque final, fazendo a direção do espetáculo para nós. A partir daí, comecei a fazer parte desse grupo.

    FM – A peça “Morte e Vida Severina”, que ficou famosa por ser apresentada na Escola Estadual Professora Júlia Kubitschek, foi uma ideia sua, a montagem?
    Gilda – Então, paralelo a tudo que estávamos fazendo, eu gostava de fazer algumas coisas na Escola Estadual Professora Júlia Kubitschek, o Colégio Estadual, onde eu dava aulas. Montamos, sim, “Morte e Vida Severina”, mas não participei, só fiz a montagem com minhas cinco turmas, nas quais eu lecionava. O interessante é que cada série fazia uma parte da apresentação. Então, em cada momento, tinha um Severino, personagem central, e confesso que esta foi uma experiência ótima e lamento não ter uma foto disso; foi uma coisa assim tão boa e tão organizada, eu até me assustei. Os meninos entravam, se apresentavam e saíam em total silêncio, entrava o segundo grupo. Nós tivemos um prêmio para o melhor Severino, foi tudo sem nenhuma orientação. Agora, a grande aventura teatral foi a peça “Chico Rei”, que foi pura coragem do Grilo colocar a gente no palco para fazer. Nessa peça, eu fazia Jocasta, e Gustavo José Lemos, o Édipo. Fazer um teatro grego sem ter qualquer noção, a gente conhecia história, sabia que era uma tragédia e mais nada.

    FM – Era muita audácia para a época?
    Gilda – Foi muita audácia, principalmente do Antônio Theodoro Grilo. Do público, quem gostou mesmo foram alguns intelectuais que estavam lá, mas a maioria não apreciou aquele tipo de peça, mas, pra gente, foi uma experiência incrível. Eu lembro que fui fazer um curso em Belo Horizonte, depois, e tinha um professor de filosofia que era muito nosso amigo e perguntou como era a cidade e eu contei e ele falou assim: “Vocês montaram ‘Chico Rei’ com texto original? Que isso?! Como vocês fizeram isso?”.

    FM – Em algum momento da sua vida você teve que se afastar dos palcos?
    Gilda - Quando eu me casei, eu optei por ficar com os meninos, achei que tinha que me afastar. Mas eu vivia um conflito enorme, pois o teatro nos chama. Até que, na montagem da peça “A Hora da Minha Vida”, o Grilo mandou me chamar e eu tive muita vontade de fazer, então, eu fui pro teatro, falei com os filhos, que ainda eram pequenos, mas o meu filho mais velho ia comigo aos ensaios. No fim, ele sabia a peça inteira, e então fizemos várias coisas depois. Nós fizemos “A Partilha”, dirigida por Job Gonçalves. Então, o que acontecia? Eram pequenos grupos do grupo Alfa. Porque o grupo era enorme, tinha bastante gente, mas eu andava sempre acompanhada com Gustavo José Lemos. Sempre tive uma ligação enorme, quantas vezes nessa cozinha a gente conversava, ria e elaborava as peças.

    FM – Como foi a criação do Vasta Fala?
    Gilda - Em 1992, surgiu algo interessante. Eu ficava impressionada como os alunos não tinham nenhuma preocupação com poesia. Percebia que eles achavam cafona, e eu estava com uma prima e disse que estava com vontade de fazer uma apresentação de poesia no bairro dela, que era bastante acolhedor. E fizemos usando o título Vasta Fala, que, a propósito, eu ‘roubei’ do amigo e autor passense Antonio Barreto. Na verdade, eu acho que uma vasta fala envolvia músicas e poemas, e nós fizemos várias apresentações, fomos a várias cidades. Eu até gostaria de ter me dedicado integralmente ao teatro, mas a gente não consegue.

    FM – Você foi funcionária pública também? E acabou criando algo interessante na administração?
    Gilda – Sim, trabalhei na Prefeitura, em 1975, e foi muito interessante, pois conseguimos fazer um festival de teatro chamado Momento 1. Isso aconteceu quando eu estava na pasta de Educação. Foi uma experiência incrível. Foram apresentadas nove peças e foi uma coisa que mexeu com o pessoal, foi uma competição entre as escolas. Depois, fomos censurados, apontados que não deveríamos fazer em forma de competição. Como não tínhamos onde montar, Gustavo sugeriu fazermos num tablado, e cada escola tinha que se virar para montar o cenário. Foram montados “Romeu e Julieta”, Shakespeare, Nelson Rodrigues, Agata Christie, peças e peças, e cada escola tinha um grupo, uma apresentação, e era um movimento na cidade; lembro que, na abertura, a banda do Batalhão desceu pelas ruas de Passos tocando. Queríamos fazer tudo para que as pessoas vissem as peças, porque uma coisa que eu acho interessante, quando eu conversava com pessoas mais velhas que eu, elas falavam que as pessoas se mobilizavam e assistiam às peças.

    FM – E sobre as Mostras das Escolas de teatro que ficaram famosas?
    Gilda - Tentamos fazer a Mostra, mas tinha que ter a continuidade. As escolas não deram continuidade a elas. Esse trabalho que o diretor de teatro, Maurílio Romão, está fazendo, acho muito importante, eu falo que o teatro sempre me dá essa dimensão de integração, interação com as pessoas, de ligar. Quando falo de declamar poesias, às vezes, eu fico com receio, há pouco tempo fizemos um recital, e eu falei poemas. Arlete Porto, a Graça Santana Garcia, falamos poemas, então, tinha um monte de gente que não tinha nada a ver, que não tem essa vivência, mas, se você visse a emoção deles de ouvir, de assistir, então eu insisto que a poesia tem que continuar, tem que existir, acho que essa relação é muito importante, quando você tá falando, representando, vivendo, o teatro tem que permanecer mesmo. A grande experiência nossa foi fantástica, uma apresentação na Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (Apac) fizemos uma apresentação com o grupo Vasta Fala. Um homem de 40 anos disse que nunca tinha visto uma peça. Hoje faço algumas coisas na igreja católica, montamos duas pecinhas com as crianças do catecismo, e o que eu noto hoje, eu acho que esses meninos mais novos não têm um compromisso. Antigamente, eu sentia mais a presença, os meninos queriam apresentar uma peça de teatro e eu acho que a escola não trabalha isso, lamentavelmente. Quando a gente pensa nisso, uma experiência que eu queria ter feito na faculdade era que os alunos de letras levassem essas discussões do teatro às escolas, mas se depararam com várias dificuldades.

    FM - Você se lembra das suas participações na “Paixão de Cristo”?
    Gilda – Participei da “Paixão” algumas vezes, fizemos no Rotary, teve um trabalho que fizemos com o Grilo que chamou “Alfarrábios”, em que ele pegou pedaços de peças e fez uma montagem, ficou muito interessante. Fizemos a “Crônica da Cidade Amada”, que era um retrato da cidade, que tinha dança, era uma espécie de teatro de revista. Eu fiz parte do texto, tinha a parte que a gente representava as escolas de Passos, com os tipos mais característicos, fazia uma grande abordagem. A parte da música que era do Leréia, ele teve uma participação fantástica, juntamente com Mark Piassi em “Eh, Ardeia”, uma sátira social. O pessoal da cidade gosta muito quando se fala alguma coisa da cidade, tanto que a gente fez várias vezes o “Trem de Minas”. Era como se fosse uma viagem, passando pelas cidades próximas daqui, e sempre lidando com os costumes, comida, algumas características daquela cidade, algum poeta. O pão de queijo, por exemplo, era falado sempre, o cafezinho, e de certa forma sempre fazíamos uma homenagem, quando falava das quitandas sempre homenageávamos a Ventania, a cidade de Alpinópolis. O pessoal daqui de Passos gosta, esse texto nós fizemos várias apresentações. Fizemos também um trabalho com Iara Tupinambá, artista plástica, ela trouxe 19 quadros do Carlos Drummond de Andrade, de um poema “A Mesa”, em que ele faz um relato da relação dele com a família. E fizemos esse trabalho falando de Drummond e de seu poema, e ela pediu para alguém falar alguma coisa. O atual secretário de Cultura e Patrimônio Histórico, Carlos Jorge Ribeiro, o Caju, chegou a participar quando fizemos uma homenagem ao poeta Welington Brandão. A família toda veio e lançaram o livro dele, é uma figura extraordinária, a gente aproveitou bastante.

    FM - Você chegou a escrever, além dessa parte que foi em conjunto?
    Gilda - Eu escrevia muito com a Arlete Porto. A primeira montagem eu tinha feito praticamente sozinha e, nessa sala, a gente sentava e eu queria que fosse bem democrático, então, a gente pedia opinião. Mas, normalmente, quem levava mais contribuição era a Arlete, a Graça Garcia. João Domingos, advogado, hoje mesmo nós conversamos, falei pra ele que queria um retrato daquele ator de “As Duas Almas”, então, de vez em quando, ele me dá alguma coisas, mas ao mesmo tempo, também, eu acho engraçado as pessoas, né, ele mandou pra mim “O Laço de Fita”, do Castro Alves, que é de uma delicadeza, é muito sensível, eu acho isso bonito.

    FM - Passos tem uma vocação teatral que todo mundo reconhece, apesar da falta de política cultural de muitos anos. O que você acha que pode ser feito para essa vocação continuar?
    Gilda - Eu acho que esse trabalho do Festival Nacional de Teatro de Passos é extremamente importante. Porém, continuo achando que a escola é a grande chave. Claro que esse festival é muito bom, as pessoas vão e curtem, mas você vai observar que são as mesmas pessoas que vão.

    FM - Mas já está acontecendo isso. Este ato que aconteceu na mostra de teatro, a gente percebeu que o público diminuiu, não existe uma infiltração nas escolas. E essa formação tem quase 20 anos que não acontece. Você acha que isso é um fator de risco para colocar essa vocação da cidade no teatro?
    Gilda - Eu acho que é complicado. Nós fizemos na faculdade aquele festival de interpretação da MPB. Surgiu isso porque eu dava aula na Fundação de Ensino Superior de Passos (Fesp) e eu ficava horrorizada que os alunos não conheciam Chico Buarque, Tom Jobim. Só aquela invasão de música sertaneja. Uma vez, eu fiz um trabalho e eu pedi para elas procurarem na música um texto que achassem uma narrativa, normalmente a música conta uma história, mas eu fiquei tão triste, de 20, 19 eram sobre música sertaneja, e uma menina só que levou “A Valsinha”, do Chico Buarque. Quer dizer, o que isso revela, eu fico boba, fiquei horrorizada, e aí você leva o autor e eles gostam. Uma vez, eu levei essa música num curso, pra explicar a narrativa, e tinha uma moça que tava longe do marido e ela começou a chorar. Então, é um exemplo, o festival de MPB, o que era nossa intenção, a gente sorteava um compositor e sorteava por escolas, aí, no começo, eu falava “vocês têm que trabalhar, o professor tem que fazer um trabalho de apresentação de autor”, olha, mas eles não tinham essa preocupação, e eu falava com os diretores, mas não tinha. Então, apareceu muita gente boa cantando, mas o trabalho era resgatar esses compositores, fazerem eles conhecerem esse tipo de música e não foi bem assim.

    FM – E o festival de poesias?
    Gilda – Ah, fizemos festival de poesia, fizemos a mesma coisa, colocava os autores, fizemos uma apresentação maravilhosa, e os pais iam pra ver, não atingiu totalmente o objetivo, mas, pelo menos, se continuasse a fazer, você tinha um programa para aquelas pessoas fazerem no momento. É o que Maurílio Romão está tentando fazer, mas a gente fica meio decepcionada mesmo, porque a escola não se envolve e não adianta, eles acham que é bobagem. Mas o próprio professor não tem conhecimento. Então, eu, uma vez, fiz um teatro de mímica, uma servente ganhou, do estadual, e nós fizemos uma apresentação como se fosse a família dela, foi muito bonito, e falavam: “Ela está matando aula”. É isso, eu fiquei encantadíssima de ver aquela movimentação, aquele povo, me faz tão bem, na verdade, acho que o FNTPassos está resgatando alguma coisa, mas é difícil.

    FM - Em alguns momentos, tiveram outros festivais que, por diversos motivos, não conseguiram se sustentar. O que fazer para se manter sustentável?
    Gilda - Eu acho que o importante é essa caminhada, sempre falo que não podemos perder a esperança. Com toda essa dificuldade, sempre penso que a gente tem que continuar, mesmo, se você fizer uma retrospectiva, fiz um artigo sobre o teatro de Passos, até do momento que eu sabia, quando começou com Ezequias e Zezé, com o pessoal que participava e, pra chegar até esse momento nosso, é muita gente que passou. A matéria teatro deveria estar no currículo escolar. Quando foi criado o colégio universitário, em Belo Horizonte, acho que foi em 1966 e 1967, eles fizeram nesse colégio, tinha a parte das ciências exatas, mas tinha a opção de estudar cinema, teatro; na época, durou 2-3 anos, o governo fechou em função da ditadura, mas era um colégio que tinha tudo. Então, eu fico preocupada com o que a gente vai ter, porque quem é que pode? Eu não tenho esse poder de mobilizar, porque, se nós levássemos isso a sério, eu acho que seria muito interessante.  

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