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    29/03/2019 08h40 - Atualizado em 29/03/2019

    Dia a Dia: Uma pequena mentira

    Maria Mineira - Especial para a Folha

    Quando nos mudamos para a cidade, meus avós ficaram na roça, mas toda semana, vovô vinha nos visitar. Trazia laranjas, ameixas, mangas e mais uma trenheira que vó Geralda enviava para os netos.
    No sítio, o pilão de limpar arroz já estava aposentado. O trabalho era feito pela máquina beneficiadora da Cooperativa Agropecuária. Vovô amarrava dois sacos de arroz no lombo do cavalo e vinha a pé para não maltratar o animal.
    Vovô Joãozinho sempre foi bem-humorado e brincalhão. Seria tudo normal se em um desses dias não fosse primeiro de abril. Ele já havia planejado a mentira que iria inventar para a neta e assim que me viu, foi logo dizendo:
    — Minha fia do céu! Nem tenho corage de ti contá o aconticido.
    — Fala vovô! É trem ruim, ô bão?
    — Cê vai ficá tristinha.
    — O Neguvom morreu?
    — Não... O seu cachorro tá vivim, mais ocê vai ficá triste...
    — Fala vô!
    — É sua arvinha de istimação...
    — O sinhor dexô arguém cortá ela?
    — Pió qui isso... Naquela chuva de antonte caiu um truvão im riba dela e torrô a coitadinha.
    Me esqueci a data e já comecei a chorar... Então vovô ficou apurado e para me acalmar, acabou contando a brincadeira do primeiro de abril.
    Na tarde do mesmo dia, quis passar um susto nele também. Vi seu cavalo amarrado à porta da Cooperativa. Estava debaixo do sol quente, com o saco de arroz nas costas. Tive uma ideia!
    —Vovô do céu! Aconteceu um trem ruim demais da conta!
    — Fala minha fia, tá mi assustano...Morreu arguém da famia?
    — Não, da famia não... Mais era quase.
    — Minha nossa, foi argum campadi meu?
    — Foi o cavalo do sinhor! Tá lá, mortinho, na porta da máquina de limpá arroiz. O povo tá in vorta dele dizeno qui foi o peso no lombo e o solão quente qui matô o pobre.
    — Misericórdia! Tadim... Ieu isquici dele carregado cum aquele peso. Intirti na venda, prosiano cos meus cumpadi.
    —Tá um povão desceno a lenha no sinhor e cum dó do cavalinho difunto.
    Desatinado, vovô não sabia o que fazer, andava de um lado para outro e nem foi averiguar a veracidade do fato. Perguntou para minha mãe o que fazer:
    — Ô fia, cumé qui ieu faço cum cavalo morto? Cumé qui ieu tiro ele da rua? Cumé qui ieu levo o arroiz de vorta pá roça?
    — Ah pai, acho qui premero o sinhor deve de i lá na prefeitura, arrumá a patrola pá rastá e o caminhão pa mode tirá o cavalo do mei da rua, né?
    Quando vi aquele alvoroço, perdi o jeito de desmentir o primeiro de abril.
    Lembro-me até hoje, do vovô correndo à sede da prefeitura, a fim de falar com o encarregado das máquinas. A história já tinha tomado proporções enormes. O que era só brincadeira virou bola de neve.
    Não vi de perto, mas soube que quando o vovô e os funcionários da prefeitura chegaram com o caminhão, cavalo estava lá tranquilo, pastando uns capinzinhos na rua, que não era asfaltada ainda.
    Todo ano, quando chega esse dia me lembro desta história. Outra coisa que não esqueço é dos passos do vovô, chegando mais tarde de volta em casa, me chamando num tom de voz muito sério:
    — Sá dona Maria...Cadê ocê?

    ***

    Dicionário mineirês:
    *Descer a lenha: O mesmo que falar mal.
    *Caiu um truvão: Por superstição, meu avô e muita gente daquela época não pronunciava a palavra “raio”, então se falava cair trovão ou faísca. 

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