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    14/03/2019 08h18 - Atualizado em 14/03/2019

    Diretores debatem sobre cinebiografias

    A polêmica criada com os 'ajustes históricos' do filme "Bohemian Rhapsody" levanta a discussão: existem limites para a ficção no cinema biográfico?

    Julio Maria - Especial para a Folha

    Quando o Freddie Mercury do filme subiu ao palco do Wembley Stadium, em Londres, sabendo que tinha Aids e que talvez fosse aquele o último concerto de sua vida, soou um sinal. Ali, era o limite. Onde estava a vida real? Que história era aquela? Há limites para a liberdade poética dos cineastas? Mais do que avisar aos espectadores de que determinado filme é algo “baseado em fatos reais”, não seria o momento de avisá-los de que aquilo se trata de uma ficção? Freddie Mercury, o real, só teria o diagnóstico de HIV dois anos depois daquele concerto do Live Aid, em 1985, mas a questão se fez maior no premiado filme por outra razão. É esse fato que rende o momento mais emocionante. É neste acontecimento ajustado que o filme se apoia para criar seu grande desfecho. Uma coisa é cantar no Live Aid. A outra é cantar sabendo que a morte está próxima.
     Com a produção de cinebiografias nacionais em alta, e com as discussões de real versus ficção que elas suscitam com força cada vez maior, cabe a discussão sem julgamentos por aqui. É primeiro preciso entender, como dizem os cineastas, que nenhuma história consegue ser preservada em todas as suas sequências temporais quando ela se torna filme. É preciso, em uma representação formatada para cinema, muitas vezes juntar duas ou mais passagens e personagens em um só, fazer ajustes temporais, criar frases inofensivas. A questão fica mais séria, no entanto, quando o fato é distorcido e a história, modificada. Quando o espectador sai da sala de cinema emocionado mas confuso, algo pode ter sido mal conduzido na adaptação.
     Erasmo Carlos ganhou seu filme há duas semanas. Minha Fama de Mau tem direção de Lui Farias e conta com Chay Suede no papel de Erasmo. “Quando vi a discussão sobre o filme do Queen, fiquei assustado e pensei: ‘Caramba, será que vai ser assim com o meu filme?’”, diz Lui. “A responsabilidade é a de respeitar o personagem em seu conceito, mas não podemos ter a obrigação de passarmos a história tim tim por tim tim.” É assim que Tim Maia aparece mostrando a Erasmo uma canção, Azul da Cor do Mar, muito antes de a música ser lançada, ou de Roberto mostrar a Erasmo a canção Amigo cerca de dez anos antes de que ela fosse criada, em 1977. Para o filme, aquilo funcionou perfeitamente. Com relação à história, o próprio Roberto Carlos percebeu. “Pô bicho, você sabe que a música Amigo não foi composta ali não, né?”, lembra Lui ao contar de quando mostrou o filme a Roberto. “Eu sei, mas não poderia não ter essa música. Por isso tive de dar uma roubadinha”, diz o diretor. A roubadinha, é preciso explicar, trata-se de um jargão comum no meio do cinema. Ele se refere aos momentos em que os ajustes de edição ou de roteiro são feitos para que seja criado o chamado arco dramático da história.
     Lui aponta outra adaptação que fez. “A música Eu Sou Terrível não pertence ao repertório do Erasmo, mas ao de Roberto. Eu a uso como sendo do Erasmo, subverti a coisa.” Ele conta ainda que o produtor Liminha foi assistir ao longa e percebeu um modelo de guitarra muito fora do contexto dos anos da Jovem Guarda. Os violões Taylor que aparecem nas mãos dos músicos, e do próprio Erasmo, também são liberdades artísticas. Naqueles anos 60, Erasmo estaria empunhando, no máximo, um Giannini velho. Lui diz que é a favor da preservação do conceito, mas afirma que o cinema precisa de uma liberdade. “Mesmo que o cineasta fique atento às questões cronológicas, sempre vai faltar algo (se nada for adaptado)”. Curioso foi o comentário que Erasmo fez a Lui vendo-se na pele de Chay Suede. “Bicho, é um negócio doido porque você vê sua vida acontecendo com uma outra pessoa”.
     Mauro Lima tem três cinebiografias nas costas, Meu Nome Não é Johnny (2008), Tim Maia (2014) e João, o Maestro, sobre o pianista João Carlos Martins (2016). Ele chama a atenção para uma coluna importante na qual os projetos biográficos podem se sustentar. “O importante é o quanto se consegue centrar a história mais próxima do real e fazê-la continuar interessante para poder atrair um público de ficção”. Mesmo o interessante, no entanto, pode ter de ficar de fora de um bom filme.
     “Existe uma chateação no Brasil que é a de se fazer filme pequeno, de duas horas no máximo”. Ele conta que, mesmo sem mentir nos dados, um filme precisa dar a ideia que o artista passa por um arco evolutivo. “Se o artista lança um primeiro disco de sucesso, o segundo de sucesso e o terceiro foi um fracasso, não dá para falar do fracasso, não vai caber em duas horas. Alguns se casam oito vezes, como iria colocar os oito casamentos?”.
     A biografia de Tim Maia trouxe muitas opções. “Eu resolvi optar por músicos que não têm nome. Não dava para colocar todos os parceiros do Tim Maia. Adoro o Hyldon, mas eu não poderia colocá-lo e tirá-lo rapidamente da história. Gostaria muito também de ter contado com a música Primavera, do Cassiano. Mas ele quis cobrar uma fortuna para ter a canção no filme, e acabei não usando”.
     Walter Carvalho fez o filme sobre Cazuza, O Tempo Não Para, de 2004. Uma falta sentida por muitos fãs foi a ausência de Ney Matogrosso na história. Além de ter namorado Cazuza, foi Ney quem lançou o Barão Vermelho depois de gravar uma música deles pela primeira vez, Pro Dia Nascer Feliz. Mesmo depois de colher um longo depoimento de Ney, o personagem acabou ficando de fora.
     “Nós chegamos a juntar dois ou três personagens em um só, de tantos que eram”, lembra Walter. “O namorado que aparece no filme é, na verdade, a junção de vários namorados. Ney é uma figura tão extraordinária que, no momento em que aparecesse, íamos começar a fazer um outro filme. Um filme sobre os dois.” Sobre mudar ou não fatos para se fazer cinema, Walter fala da liberdade irrestrita ao cinema. “Penso que você está sempre diante de uma obra de ficção. Isso acontece a partir do momento em que você coloca uma câmera. Enquadrar é incluir ou excluir?”.
     Outro nome sempre envolvido em biografias é o de Nelson Motta, que acaba de entregar o roteiro do filme sobre Roberto Carlos. A produção está sendo dirigida por Breno Silveira e conta com as memórias narradas pelo próprio cantor. “É impossível reproduzir as coisas nos filmes como elas foram na vida real, temos que tirar essa função do cinema. Isso fica para os biógrafos”.

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