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    07/02/2019 06h23 - Atualizado em 07/02/2019

    Mais que um documentário

    O documentário destaca a religiosidade da cantora por amigos e pessoas íntimas, como o irmão Caetano Veloso e o compositor Chico Buarque

    Luiz Carlos Merten - Especial para a Folha

    Marcio Debellian é o primeiro a admitir que a demora para concluir e lançar Fevereiros terminou sendo positiva para o filme. Conferiu-lhe outro significado. Ele filmou no final de 2015 e começo de 2016, no período em que a Mangueira se preparava para o desfile da Sapucaí, em homenagem a Maria Bethânia. A escola venceu e, naquele clima de euforia, Debellian fez uma primeira montagem. Voltou a filmar, ao longo de 2016, incluindo as entrevistas com o mano Caetano e o historiador Luiz Antônio Simas. Embora Bethânia esteja no centro do filme, e a câmera de Debellian estivesse grudada nela, a entrevista com a poderosa foi feita somente em fevereiro de 2017 em que Debellian voltou à montagem e o filme ficou pronto para o Festival do Rio daquele ano.
     Um ano e meio depois, Fevereiros chega aos cinemas num contexto muito particular. Jair Bolsonaro presidente, evangélicos e magistrados empossados como ministros, discursos contra a malemolência dos negros, dos índios. No Estado laico, governa-se em nome de Deus. Nesse contexto, Fevereiros chega não apenas como uma lufada em defesa da tolerância. O filme está impregnado pelo sincretismo religioso baiano. Bethânia, filha de Iansã, criada nas novenas da igreja de Santo Amaro da Purificação, transita entre a ancestralidade da herança africana - o chamado dos atabaques - e o cerimonial católico.
     Foi esse sincretismo que o carnavalesco da Mangueira, escola do povo - Leandro Vieira é seu nome -, quis celebrar na avenida. “O Brasil regrediu 100 anos com essa nova conformação de poder e governo. Fevereiros virou uma peça de resistência em defesa do sincretismo, com tudo o que representa de tolerância.” E tudo começou porque Debellian, ao saber que Bethânia seria homenageada pela Mangueira, intuiu que seria uma coisa grande. Bethânia, todo mundo sabe quem é. E Debellian? Música e cinema têm andado juntos na trajetória do cineasta que, em 2008, produziu, a partir de um argumento próprio, o belo documentário de Helena Solberg, Palavra (En)Cantada, sobre a poesia da MPB. “Fui sempre atravessado por isso, por essa relação entre música e literatura. Conheci (Jean-Paul) Sartre a partir de Caetano, o concretismo com Arnaldo Antunes. Bethânia sempre foi a encarnação da poesia. Já a conhecia, e consegui sua autorização para filmar, mesmo que ela tenha deixado claro que tinha uma agenda a cumprir e não estaria à minha disposição.”
     Por que um documentário sobre a espiritualidade de Maria Bethânia chama-se assim, Fevereiros? Ela própria explica. Dia 2 de fevereiro, dia de festa no mar, ela tem de estar na sua Santo Amaro para as festividades em honra de Iemanjá e da Senhora dos Navegantes. Na verdade, a preparação corre em janeiro. O comecinho de fevereiro é o ápice, a celebração. Fevereiro é época de estar em casa - Bethânia lembra de perguntar-se, e a irmã, Mabel Veloso, também, como seria fevereiro sem a mãe, Dona Canô, que sempre abriu a casa para o festejo popular. “Fé e festa, foi isso que aprendi com ela e o que o Leandro (carnavalesco) celebrou na Mangueira. Essa espécie de generosidade, de repente, ficou rara no Brasil, onde hoje, para celebrar um santo, despe-se outro.”
     Leandro Vieira, no filme, fala na importância de representar o Brasil negro, mulato, o País dos excluídos. Lembra que a religiosidade popular foi perseguida. O historiador (Simas) diz que o samba de roda nasceu nos terreiros da Bahia antes de migrar para o Rio. “Só podia ter sido aquela apoteose na avenida, porque era o centenário do samba e celebrar Bethânia era colocar o povo no desfile.” Toda uma história de resistência - do samba, das religiões afro - é contada por meio de Maria Bethânia, do que ela representa e Bethânia fala - sobre a doçura de Mãe Menininha, que era como a fonte da água da vida. Generosa, porque sabia que o manancial nunca ia secar. É tudo isso que Marcio Debellian coloca de maneira tão simples. Bethânia em casa, em Santo Amaro, no barracão da Mangueira, na igreja e no gantois. Uma coisa não exclui a outra. Tudo soma.
     Bethânia é impregnada de tudo. Mãe Menininha lhe disse que, como filha de Iansã, ela não devia ter medo de nada. Oyá, Iansã. “Bethânia usa a música para espalhar a poesia pelo mundo. Tudo o que ela faz de uma maneira tão autêntica, tão popular, está embasado na alta cultura”, avalia o diretor. A espiritualidade de Maria Bethânia.
     Como momento de comunhão e equilíbrio de homens e mulheres com eles mesmos e o universo, a espiritualidade não precisa, necessariamente, ligar-se a uma só religião. Existe pano para vestir todos os santos, como existem ateus espiritualizados. Luis Buñuel adorava definir-se como ateu, “graças a Deus”. Bethânia é dessa estirpe guerreira. Filha de Iansã, devota na igreja e no coração de seus fãs.

     

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