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    08/01/2019 06h55 - Atualizado em 08/01/2019

    Alter do Chão, o caribe brasileiro

    Vilarejo próximo a Santarém, terceira maior cidade do Pará, oferece peixe fresco, autenticidade e praias de rio que estão entre as mais bonitas do País

    Bruna Toni - Especial para a Folha

    Lá do alto, a imensidão de água que eu tentava alcançar com os olhos grudados na pequena janela do avião me paralisava a tal ponto que cheguei a pensar se poderia ser isso fruto de mais um feitiço do tal boto namorador que, segundo a lenda, se transforma em homem e sai a encantar mulheres nas noites enluaradas dos rios do Norte. Ou seria apenas a emoção de estar perto, como nunca estive, do Rio Amazonas, que lá embaixo fazia seu curso de forma majestosa, cortado aqui e acolá por terra firme coberta pela floresta.
    É assim, cheia de emoções, a chegada a Santarém, terceira cidade mais populosa do Pará e ponto de desembarque para turistas que saem de Belém, em voos de 1h15, e de Manaus, em voos de 1h, em busca da cada vez mais cobiçada Alter do Chão, 39 quilômetros distante do aeroporto.
    Fundada no século 17, a vila de Alter é frequentada por paraenses e manauaras há algum tempo, mas começou a chamar a atenção no eixo Sul e Sudeste depois de ter liderado o ranking das melhores praias do Brasil publicado pelo jornal inglês The Guardian, em 2009. “A melhor praia brasileira não está no Rio de Janeiro ou no Nordeste. Também não está na costa. Está num rio no coração da Floresta Amazônica”, disse o veículo. Mais recentemente, em 2016, a publicação voltou a falar do destino, destacando suas aldeias remotas, sua floresta tropical e o clima mais baladeiro que chega com o fim do ano, quando agências organizam festas de réveillon em suas praias, atraindo turistas de todo o País.
    Agora também na lista de melhores destinos do Viagem para 2019 (bit.ly/melhores2019), Alter ganha cada vez mais notoriedade na mídia e espaço nos roteiros paraenses. Foi assim que, decidida a conhecer Belém e Ilha de Marajó, decidi esticar também até o vilarejo banhado pelas águas mornas e transparentes do Tapajós. Como o Amazonas (onde deságua), sua imensidão dá a ele aspecto de mar, formando em Alter do Chão um dos maiores aquíferos do mundo, com volume de água estimado em 83 mil quilômetros cúbicos.
    Areia, guarda-sol e floresta. Praia de rio: eis a principal atração de Alter. Parece pouco? Espere só para sentir a delícia de estar sobre estreitos bancos de areia, cercados de água doce às vezes dourada, às vezes esverdeada, comendo um pirarucu assado na hora. Ou de encontrar outras tantas faixas de areia clara, onde vez ou outra desabrocham troncos anárquicos de árvores baixas, garantindo sombra em lugares silenciosos e paradisíacos no chamado Caribe Amazônico.
    Mas há ainda as árvores altas e cheias de vida da Floresta Nacional do Tapajós, uma das primeiras unidades de conservação do País. E as comunidades ribeirinhas, que recebem seus visitantes de maneira simples e agregadora, mostrando o trabalho que realizam para sobreviver e manter em pé uma floresta que, há muito tempo, tem sido ameaçada por interesses econômicos.
    Reserve no mínimo três dias para Alter, mas tenha em mente que é preciso uma semana para fazer os passeios com calma. Em setembro, a Festa do Sairé movimenta a vila e, apesar de enchê-la, é chance ímpar de vivenciar uma das manifestações religiosas e artísticas mais emblemáticas do Norte do País. Entre procissões, almoços e fogos de artifício, dois botos, Tucuxi e Cor-de-Rosa, revivem a lenda do boto namorador, disputando no Sairódromo o título de melhor do ano – como é em Parintins com os bois.
    Pela imensidão de seus rios, pelas praias, pela floresta, pelo pôr do sol, pela cultura e culinária local. É o destino da vez, no fim das contas, porque nos mostra quantos significados podem ter a Amazônia.
     

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