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    03/01/2019 08h45 - Atualizado em 03/01/2019

    Tributo a Amós Oz

    Alberto Calixto Mattar Filho

    O mundo literário e intelectual perdeu, há alguns dias, o grande escritor israelense Amós Oz, aos 79 anos, vítima de câncer. Ao observar recentes matérias sobre Oz, pude constatar, mais uma vez, que se tratava de um profundo pensador sobre os conflitos históricos entre árabes e judeus, cujo legado está seus nos reconhecidos romances, ensaios e artigos jornalísticos.
     Vivemos atualmente sob circunstâncias em que proliferam, pelo mundo, focos de visões extremas, mas Oz procurava enxergar, com olhos críticos, os diferentes pensamentos defendidos por povos que se antagonizam há tempos, no caso, árabes e judeus. Diz-se que foi um lutador incansável contra o fanatismo, o que se há de louvar sempre.
    Em 2015, publiquei, neste espaço, um artigo sobre uma de suas obras, “Judas”, que eu lera à época e, em outubro de 2017, selecionei como um dos 50 textos a integrar meu livro. Pois em sua homenagem póstuma, vou republicar, abaixo, os principais parágrafos daquele artigo como uma forma de reiterar o apreço que por esse grande autor passei a sentir ao pesquisar sua trajetória e ler o excepcional “Judas”.
    Quando tive notícias do lançamento de “Judas” e observei os detalhes das resenhas a respeito, fiquei muito atraído por me entregar a suas páginas. Afinal, o próprio nome Judas é dos mais conhecidos da história. Claro, o Judas Iscariotes, que sempre será lembrado por personificar a traição a Jesus.
    Seu autor é Amós Oz, um escritor israelense nascido em Jerusalém, em 1939. Fundador e principal representante do movimento israelense “Paz Agora”, Oz é o intelectual e escritor mais influente de Israel. Segundo a crítica, poucos autores escrevem com tanta compaixão e clareza sobre as agruras presentes e passadas daquele país.
    Tendo recebido vários prêmios literários, inclusive recorrentes indicações ao Nobel, Oz criou um variado estilo de obras, entre as quais se incluem romances, artigos e ensaios em revistas e jornais, tanto em Israel, quanto em outros países do mundo. “Judas” é seu último romance e foi publicado em 2014.
    Num momento em que novamente se acirram os ânimos entre Israel e Palestina, com ondas de violência mútua, a leitura de Judas vem a calhar, uma vez que, por meio de personagens marcantes, o autor aborda temas polêmicos, tanto no campo político dos conflitos históricos entre árabes e judeus, quanto em termos religiosos, ao expor e bem fundamentar sua diferente visão de Judas Iscariotes.
    A narrativa começa nos idos de 1959/1960, em Jerusalém, quando o protagonista Samuel Asch, um estudante em dificuldades financeiras, tem que interromper seus complexos estudos sobre Jesus e vai em busca de um emprego para sobreviver. Ao observar um anúncio de que, em uma simples casa, procuravam alguém para fazer companhia a um velho judeu solitário, não teve dúvidas em ir até lá e aceitar a proposta.
    Suas obrigações profissionais consistiriam em ficar de cinco a seis horas diárias conversando com o velho, para que este, já em idade avançada, pudesse manter a mente ativa pela constante troca de ideias. Deveria, ainda, dar-lhe algo de beber e comer em horários específicos.
    Eis então o ponto em que o romance começa a se desenvolver: exatamente nos densos diálogos entre Samuel e Guershom Wald, o velho solitário. Por serem ambos muito cultos, os temas versavam sobre a complexidade das relações entre árabes e judeus, além de aspectos religiosos não menos controvertidos sobre cristãos, judeus, islâmicos, Cristo e Judas.
    Surgem, entre ambos, as controvérsias das ações bélicas para o estabelecimento de estados por meio de guerras, no caso, Israel, e também se poderia haver algum espaço para a paz e a comunhão dos povos. Advêm, portanto, as críticas às condutas defendidas por homens de cúpula que integraram o movimento para a criação do Estado israelense ao se utilizarem de medidas drásticas para obterem seu intuito.
    Como pano de fundo, aparece a trajetória de Judas Iscariotes. O protagonista Samuel Asch lera e pesquisara muito sobre Judas durante seus estudos de Jesus. Com base em textos antigos, ele lança ao velho Wald fatos que fogem completamente à sua condição de ser considerado o maior traidor de todos os tempos, o homem que traiu a Cristo.
    Ao contrário de tudo que se pensa, o que se extrai da narrativa é que Judas fora, isto sim, o discípulo que mais amara a Jesus e o mais fiel a seus ensinamentos. Talvez o único. O verdadeiro. No seio de tantas passagens esplêndidas, há um capítulo especial e revelador, entre as páginas 299 e 313, que narra os momentos finais de Judas enquanto Cristo agonizava na cruz.
    Por certo, são ideias bastante provocadoras e intencionalmente postas em prática pelo autor com base em seu vasto conhecimento. Não apenas a que se refere a Judas, mas as que lançam dúvidas a respeito de ter sido correta a fundação do Estado de Israel com base no conflito armado.
    A obra induz a reflexões sobre a conduta humana perante questões históricas, não só nos campos políticos da busca de espaço e poder, mas também em matéria de religião, no que tange a crenças sedimentadas. Ao valer-se da estética literária para fazê-lo, Amós Oz a tudo realiza com ampla sabedoria e sob a construção de diálogos profundos que envolvem dramáticas e tocantes trajetórias pessoais.
    “Judas” não se trata de um ensaio sobre defesa de teses. Romance que é, o desenrolar da narrativa é para ser apreciado literariamente. Somos apenas convidados a pensar, imaginar e abrir portas para o questionamento de verdades estabelecidas.

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