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    21/12/2018 08h33 - Atualizado em 21/12/2018

    O sagrado e o fascismo, por Umberto Eco

    ?Nos Ombros dos Gigantes? e ?O Fascismo Eterno? reúnem palestras do escritor e semiólogo italiano Umberto Eco, nos anos 1990 e 2000; ?O Nome da Rosa? ganha nova edição

    Ubiratan Brasil - Especial para a Folha

    Foi a partir de um aforismo do genial matemático Isaac Newton (“Se eu vi mais longe, é por estar nos ombros de gigantes”) que outro artista não menos notável, o escritor e semiólogo italiano Umberto Eco (1932-2016), criou uma bela cena para seu romance O Nome da Rosa em que ressalta o dom do artista de vislumbrar o futuro. Pois é justamente Nos Ombros dos Gigantes o título de um volume agora lançado pela editora Record, que reúne palestras proferidas pelo autor no festival La Milanesiana, em Milão, entre 2001 e 2015.
     São textos em que Eco, como poucos, sabia unir erudição e clareza para tratar de temas aparentemente banais como beleza, feiura, invisível e segredo. Complementando o que chama de a essência de Umberto Eco, a Record lança ainda outro volume, O Fascismo Eterno, que traz a íntegra de uma palestra proferida nos anos 1990, nos EUA. E, para fechar uma trinca respeitável, a editora oferece uma edição de colecionador de seu principal best-seller, O Nome da Rosa, com tradução revista por Ivone Benedetti – esse volume terá venda exclusiva pelo site da Amazon.
     O festival La Milanesiana foi criado em 2000 pela escritora e cineasta italiana Elisabetta Sgarbi com a intenção de discutir literatura, música, cinema, ciência, arte, filosofia e teatro. Em pouco tempo, as palestras de Eco se tornaram o ponto alto do evento, atraindo pequenas multidões. Logo no texto que abre a antologia, justamente o que dá título ao volume, Nos Ombros dos Gigantes, Eco traça uma linha cronológica dos grandes pensadores que influenciaram uns aos outros, uma relação semelhante à de pais e filhos: conflitantes e, ao mesmo tempo, estimulantes.
     “Estamos entrando em uma nova era”, escreve ele, em 2001, “na qual, com o ocaso das ideologias, o desvanecimento das divisões tradicionais entre direita e esquerda, progressistas e conservadores, se atenua definitivamente qualquer conflito geracional”. E questiona: “Mas seria biologicamente recomendável que a revolta dos filhos representasse apenas uma adequação superficial aos modelos de revolta oferecidos pelos pais, e que os pais devorassem os filhos presenteando-os simplesmente com espaços de marginalização multifacetada?”.
     Em seus colóquios, Eco costumava apresentar slides com reproduções de obras de arte que exemplificavam seus conceitos. O livro traz, portanto, entre os 12 textos, quase 150 imagens de quadros, esculturas e outros grandes momentos da criação artística ao longo de cinco séculos. O trabalho iconográfico é especialmente interessante no último capítulo que trata sobre o sagrado. É quando Eco se deleita (e também o leitor) ao apresentar uma vasta iconografia sacra com criações de Caravaggio, Tintoretto, Giorgione, Lorenzo Lotto e Carlo Maratta.
    A própria capa do livro traz como imagem o retrato que William Blake pintou de um Isaac Newton jovem – musculoso, portanto –, uma surpresa diante do habitual senhor, com ar de pensador, com que o público se acostumou a identificar o físico e matemático. A ilustração refere-se à palestra dedicada ao Absoluto e Relativo, especialmente na passagem em que Eco confronta a visão do mundo dos holistas.
    Eco é hábil em sua argumentação, pela qual transmite definições que, se parecem definitivas, servem na verdade para abrir debates. Em seu entendimento, por exemplo, a beleza e a feiura devem ser entendidas segundo o momento histórico e os cânones estéticos dominantes.  

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