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    13/12/2018 08h09 - Atualizado em 13/12/2018

    Lançamento reúne talento de Cassavetes

    Uma caixa lançada pela Versátil revela para os brasileiros a obra do diretor, morto em 1989, e que teve muito pouco de seu trabalho exibido em circuito comercial

    Da Redação
    No documentário de Michael Ventura que acompanha a caixa A Arte de John Cassavetes, o produtor Menahem Golan profere uma frase exemplar sobre o diretor norte-americano: “É hora de a América reconhecer que tem o seu próprio Bergman”.
    Nenhum exagero na definição, enunciada há mais de 30 anos atrás, em que pese ser necessário algum esclarecimento. Um dos mais merecidamente celebrados diretores independentes americanos, John Cassavetes certamente admirava o sueco Ingmar Bergman, em seu foco em relacionamentos humanos com a complexidade devida para quem realizava cinema adulto e profundo. No entanto, tudo que em Bergman era controle, em Cassavetes era caos, ebulição, busca de captar o instante, como filmando a vida mesma. E isso focalizando os relacionamentos ao mesmo tempo que incorporando todo tipo de contexto e incidente em torno deles: o bairro, a cidade, o trânsito, os desconhecidos com quem se tromba ao acaso, os colegas de trabalho, os garçons, todos tão importantes para compor o cenário quanto os dilemas dos protagonistas.
    No mundo de Cassavetes, que os três títulos desta caixa – os inéditos por aqui A Canção da Esperança (61), Assim falou o amor (71) e Amantes (84), todos em versões restauradas – tão finamente representam, está o mais puro de sua procura e estilo. Ou seja, a câmera fluida, sempre atenta para acompanhar o fluxo de personagens, encarnados por atores que os interpretam sem fronteiras entre a atuação física e psicológica. O físico é o psicológico.
    Nunca se sabe o que vai ocorrer àqueles seres das originais histórias de Cassavetes, mais imprevisíveis do que a vida e, sobretudo, muito além dos enredos repetidos à exaustão em Hollywood. No entanto, curiosamente, sempre se sente o quanto esses personagens estão calcados na realidade, impregnados dela, de sua dinâmica mais intensa, num jogo como que paralelo a ela, que se empenha em continuar-se a si mesmo, que é tecido no enorme amor ao teatro. O diretor, aliás, dizia não ver a diferença entre cinema e teatro, para ele, duas pistas que se entrelaçavam, em que tudo era ao mesmo tempo vida e espetáculo – onde ficava a fronteira?
    O espectador de Cassavetes é, assim, alguém que busca ser surpreendido e de quem se espera empatia e adesão, para envolver-se sentimentalmente pela sorte de Ghost (Bobby Darin), o músico de jazz, e Jess (Stella Stevens), a cantora em conflito de A canção da esperança. Ou o casal caótico, Minnie (Gena Rowlands) e Moskowitz (Seymour Cassel) de Assim falou o amor. Ou os irmãos solidários de Amantes, Robert (Cassavetes) e Sarah (Gena).
    Nenhum dos filmes cabe numa sinopse convencional, motivo pelo qual é melhor deixar de lado a tentativa. Em favor de cada um deles, dê-se alguma pista. Como o de que em A Canção das Esperança a música é, muito mais do que um ofício, um modo de viver, num filme feito para o estúdio Paramount que, por isso, utiliza-se de uma estilização – como nas cenas de bar – que estará ausente de outros trabalhos do cineasta.
    No caso de Assim falou o amor, quase impossível imaginar um casal mais desigual do que Minnie e Moskowitz, ela sofisticada, ele rústico – mas a história se encarrega de criar as condições para que aqui surja uma família, núcleo essencial da cosmografia de Cassavetes, ele mesmo formando com Gena, atores amigos, seus filhos e outros aderentes, filmando muitas vezes em sua própria casa, uma comunidade capaz de driblar as limitações de orçamento.
    Da mesma forma, a solidariedade fraterna de Robert e Sarah tudo afronta em Amantes, em que, como sempre no universo Cassavetes, nunca se julga nem mesmo a loucura (quantas vezes esse componente não temperou filmes maravilhosos do diretor, como Uma Mulher sob Influência, outro trabalho magistral de Gena Rowlands sob sua batuta?).
    Não há mais a fazer do que seguir essa câmera inquieta, esse cinema conjugado no presente, que dispensa explicações e flashbacks e mistura o sublime ao irrisório num fluxo permanente.
    Principal extra do pacote, o documentário Cassavetes – o homem e sua obra, de Michael Ventura, realizado durante a filmagem de Amantes, ilustra com perfeição o método do diretor, que ali define os filmes como “coisas vivas”. Por isso, lamenta que nunca o projeto do diretor seja reproduzido realmente na tela, porque as obras, como a vida, o contradizem. Ainda mais alguém que, como ele, incorporava sugestões dos atores e acidentes de percurso ao resultado final – que, ao contrário das aparências, não era quase nunca improvisado. Improvisação, quando havia, era antes. Depois, Cassavetes fechava os planos, os diálogos, e os integrantes seguiam o que fora decidido.
    Uma exceção foi a cena em Amantes em que Gena procura fazer o ex-marido e a filha rirem – isso foi improvisado, sim, embora combinado com ela antes (que se apavorou um pouco, como ela confessa no documentário).Gena, mulher do diretor e sua musa inconteste, merece destaque especial na caixa. Especialmente quando diz que “as mulheres não são loucas, só têm sonhos diferentes”. Definição de musa, atriz e mulher maior. 
    A caixa, lançada pela Versátil, completa um esforço de tornar mais conhecida no Brasil a obra do diretor, falecido em 1989, e que teve muito pouco de seu trabalho exibido em circuito comercial. Em 2007, o CineSesc paulistano realizara outra iniciativa neste sentido, exibindo na sala, em cópias 35 mm trazidas de Portugal pelo Grupo Estação, do Rio, Sombras (60), Faces (68), Uma mulher sob Influência (74), A morte de um bookmaker chinês (76) e Noite de estreia (78).

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