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    26/11/2018 07h22 - Atualizado em 26/11/2018

    Entre Prosas: Olavo de Carvalho

    "Já gastei o meu estoque de ministros"

    Beatriz Bulla - Especial para a Folha

    Responsável por indicar dois ministros do novo governo, o filósofo Olavo de Carvalho rejeita o rótulo de ideólogo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. “É lenda urbana”, disse. Ele afirmou que há uma “dominação comunista” na educação brasileira e defendeu que seja feita uma “reunião de provas” sobre isso. Por isso, disse que é ingenuidade levar o projeto Escola sem Partido para debate no Congresso e que “uma guerra cultural se vence no campo cultural”. Olavo de Carvalho, que há 13 anos mora na Virgínia, nos Estados Unidos, criticou ainda a imprensa brasileira e falou que a eleição de Bolsonaro “tem de ser respeitada”.

    Pergunta - Seu pensamento tem influenciado as decisões do novo governo, mas o senhor tem dito que teve pouco contato com o presidente eleito.

    Resposta - Conversei com ele exatamente três vezes, por telefone. O Eduardo (Bolsonaro) esteve aqui uma vez e o Flávio (Bolsonaro) esteve uma vez.

    P - Eduardo Bolsonaro virá aos EUA na semana que vem. Pretende se encontrar com ele?

    R - Eu espero que sim, se ele tiver tempo e puder dar uma esticada na viagem até aqui, será um prazer recebê-lo.

    P - Ele fez algum contato?

    R - Que eu saiba, não.

    P - Tivemos dois ministros definidos a partir de indicação do senhor. Há mais indicações suas?

    R - Já gastei o meu estoque de ministros, eu não tenho mais nenhum no bolso (risos). Infelizmente não tenho mais ninguém.

    P - Para falar das áreas com ministros que passaram pela sua indicação, como o ministro das Relações Exteriores, o assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, viaja nesta semana ao Brasil, e Eduardo Bolsonaro viaja para os Estados Unidos. Como o senhor imagina a aproximação entre EUA e Brasil e como o país vai se colocar no cenário internacional, tendo a China como importante parceiro comercial?

    R - O presidente (Donald) Trump disse que tem US$267 bilhões esperando para investir no Brasil, eu acho que isso é muito bom. Não adianta nada dizer “ah, isso vai desagradar a China”, como disse aquele idiota do Mino Carta, “ano passado o comércio com a China nos deu 20 milhões de superávit”, muito bem. A China só fez isso porque o governo Lula e Dilma e o Temer também estavam distribuindo dinheiro para os amigos deles, os amigos da China: Cuba, Angola, Venezuela etc: um trilhão. Levamos 20 milhões e distribuímos um trilhão. Que beleza, né? Claro que se o governo parar de representar vantagem política para a China, acaba o comércio na mesma hora. Comércio com a China é escravidão. Isso é óbvio e todo mundo deveria saber disso. Vai perguntar para o Tibete se é bom conversar com a China. Agora, para os EUA, é bom, porque a riqueza da China é quase feita toda de dinheiro americano. Outra coisa, tem gente que chega a ser tão idiota que ultrapassa a medida do acreditável. Por exemplo, Mino Carta acha ruim comerciar com Estados Unidos e acha que deve comerciar com a China. Mas a China só quer saber de comerciar com os Estados Unidos, meu Deus do céu. Por que os EUA são bons para a China e ruins para nós? Essa coisa antiamericana pueril é coisa de estudantezinho comunista de 1950, naquele tempo, havia um livrinho que os comunistas distribuíam, a Editora Brasiliense, que é comunista para caramba, chamado “Um Dia na Vida do Brasilino” e tudo o que ele consumia era americano. Só que, se você retirasse todos aqueles produtos, o Brasilino retornaria à Idade da Pedra. Tem essa mentalidade ainda. É encrenquismo. Agora, encrenquismo com a China não tem, embora estejamos de fato entregando tudo para a China. Essa burrice já passou do limite no Brasil. Hoje, o Cristovam Buarque diz uma coisa que prova que ele não tem capacidade para ser professor de ginásio. Ele diz: soviéticos e nazistas tentaram o Escola sem Partido e não deu certo. Como você diz uma coisa dessas? Isso quer dizer que a educação na União Soviética era sem partido? E o Partido Nazista também não ditava as regras de educação? Não tinha uma doutrina pronta? Como esse idiota faz uma coisa dessas e o pessoal ainda chama de educador? Não, ele não é um educador, é um destruidor da educação nacional. Esse homem foi ministro e todos os ministros da Educação dos últimos 50 anos são culpados da destruição da educação nacional. Esse sujeito deveria calar a boca e nunca mais abrir a boca. Esses são ídolos da mídia, a mídia adora. É uma espécie de máfia, eu falo bem de você e você fala bem de mim. Então, tem os intelectuais queridinhos da mídia. Você leu “O Imbecil Coletivo”?

    P - Não.

    R - Então leia, você vai ver que todos os camaradas que nos anos 1990 falavam de mim, o que esse pessoal da mídia fala hoje, todos eles estão esquecidos, jogados na lata do lixo. E os que estão falando hoje também serão jogados na lata do lixo. Só que eles acham que vão ser imortais. Acham que vão sobreviver à minha obra. São loucos? Não sabem com quem estão lidando, porra. Eu sou um escritor de envergadura universal, esses caras são uns jornalistinhas de merda, saíram da faculdade ontem, porra. E quer discutir comigo? Ah, que coisa ridícula. O meu prestígio vai crescer e o deles vai sumir. Por que estão entrando num confronto em que só podem ser ridicularizados? A mídia não tem credibilidade alguma. Você vai averiguar, a tiragem do Estadão é menor do que a que tinha nos anos 1950. Os que ficam botando banca, se esses órgãos estão todos perdendo credibilidade rapidamente? Todos apostaram na derrota do Bolsonaro e todos passaram vergonha. Ainda querem continuar passando vergonha? Por quê? Por que vêm pedir para mim, para eu os envergonhar? Eu não quero humilhar ninguém, mas os caras dão a cara a tapa, fazer o quê?

    P - O que quer dizer com a aposta na derrota do Bolsonaro?
    R - Todos os comentaristas diziam que era impossível se eleger. Não teve um que dissesse “o Bolsonaro tem chance”. Nenhum disse. Mas diziam isso baseado no desejo, não numa análise objetiva. Que eu saiba, que previu a vitória do Bolsonaro só eu e o Filipe Martins, que, aliás é meu aluno. A mesma coisa no Trump. Todos esses sábios da mídia brasileira dizendo “vai dar Hillary na cabeça”. Vai dar na cabeça deles, isso sim. Bando de idiota. Gente analfabeta. É analfabeto funcional grave. Hoje, na mídia, você não pode fazer uma piada que as pessoas entendem em sentido literal. Ou é sinal de doença mental ou de analfabetismo funcional, coisa boa não é. Estão todos assim, meu Deus do céu. O que aconteceu? Aconteceu 50 anos de propaganda comunista na orelha, sem o devido contraste para poder pensar. Outra coisa: só admite discussão padronizada, então você tem os progressistas de um lado e os conservadores do outro, essas duas linhas de pensamento, não admite as diferenças. Então, para que você precisa dos filósofos se você já tem as ideologias prontas? Vocês vêm me entrevistar e pensam “esse aqui é o representante do pensamento conservador”. Pensamento conservador é a mãe deles. Eu tenho o meu pensamento, minha ideia, minha filosofia está registrada em livro. Por que não leem o livro para depois conversar comigo? E não querer que eu seja enquadrado nessa porcaria que eles pensam de pensamento conservador. Você é a 20ª pessoa que vem me entrevistar e sempre com a mesma expectativa: de que eu represente o pensamento conservador, o pensamento da extrema direita. Que estupidez é essa?
    P - Não tenho a expectativa que o senhor represente o pensamento da extrema direita. Quis entrevistá-lo, porque o seu pensamento influencia o novo governo. O sinal são os dois ministros nomeados a partir das suas indicações.

    R - Eu escrevi livros que foram aplaudidos pelas maiores inteligências do mundo. Gente de primeiríssima ordem. Ninguém na mídia liga. De repente, eu indico dois ministros e pronto. Isso já é uma palhaçada. Pessoal só se interessa pela coisa superficial do dia. E a contribuição que o homem está fazendo para o pensamento profundo não interessa.

    P - Em uma entrevista em 2016 o senhor fala que foi o “parteiro” de uma direita. O senhor coloca o governo Bolsonaro dentro dessa direita da qual se define o parteiro?

    R - É um governo de direita sem dúvida, mas a mídia inteira está escandalizada por haver um governo de direita. Isso quer dizer que não pode ter um governo de direita? Só pode ter de esquerda? E eles chamam isso de democracia? Há 20 anos disse: o PT não está disposto a suportar o rodízio de partidos no poder. Ele quer ficar para sempre. E toda a mídia é cúmplice nisso, porque eles não aceitam que haja um governo de direita. Nos EUA, você tem um governo de direita e pode ter um governo de esquerda. Todos os países decentes do mundo são assim. No Brasil não pode? Só pode ter esquerda? Em duas eleições, todos os candidatos eram de esquerda e o Lula celebrou isso como se fosse a perfeição da democracia. Toda a mídia – Estadão, Folha, O Globo –, todos eles pensam assim: o governo de esquerda é a perfeição da democracia. Agora, você sabe por quê? Todas as pesquisas demonstram que 70% a 80% dos brasileiros são cristãos conservadores. Em um país de maioria cristã conservadora, você não tem um partido cristão conservador? Um jornal cristão conservador? Uma universidade cristã conservadora? Uma estação de TV? Uma estação de rádio? Nada. A maioria do país está excluída de representação política e os caras consideram que isso é a perfeição da democracia. Estão brincando comigo? O Bolsonaro é a representação da vontade popular e tem que ser respeitada, o pessoal da mídia tem que calar a boca e aceitar a realidade das coisas, aceitar que o rodízio do poder é a essência da democracia. Eles não entendem isso, acham que democracia é o governo deles.

    P - Começamos a falar sobre a China e mudamos de assunto: defende que o Brasil se distancie da China como parceira?
    R - Para conversar com a China, tem que falar grosso, porra. Tem que ser toma lá, dá cá. E não é isso que está acontecendo, eles estão dando tudo para a China. Estão entregando. É o entreguismo mais descarado que eu já vi na minha vida. Se os americanos fizessem o que a China está fazendo conosco, haveria uma revolução no Brasil. Os caras entregam tudo para a China a preço de banana e ainda dão dinheiro para os parceiros da China. Você acha que esse dinheiro que deram para Cuba, Venezuela, Angola vai voltar algum dia? Nunca vai voltar. Essas grandes nações comunistas que foram a União Soviética e a China vivem do roubo e do saque. Vocês não perceberam ainda, não? Vou contar alguns episódios que as pessoas não sabem. Durante a Guerra Civil Espanhola, os russos chegaram à Espanha, pegaram todas as reservas estatais de ouro dizendo que era para protegê-las e levaram para Moscou. Nunca devolveram um tostão. Nunca.

    P - O embaixador Ernesto Fraga Araújo vai falar grosso com a China como o senhor defende?

    R - É claro. Tem que ser uma paridade como qualquer negociação. Tem que ver o que é do nosso interesse, o que é do interesse deles e tem que ter uma troca equitativa. Também não tem que esperar que a China nos apadrinhe, seja nossa mãe.

    P - Quando começou sua relação com o embaixador Ernesto Fraga Araújo?

    R - Não faz muito tempo, um ano, um ano e pouco. Ele esteve aqui em casa com um amigo meu e comecei a ler os artigos dele. Fiquei impressionadíssimo. Ele é capaz de fazer análises que a nossa mídia inteira não é capaz de fazer. Estão achando ruim com ele, por que não vão discutir com ele? Porque não têm capacidade. Você acha que esse pessoal de mídia... pega os colunistas do Estadão. Tem algum capacitado para discutir com Ernesto Araújo ou comigo? Estão brincando, porra. Um bando de moleque. Coitadinhos. Eu tenho a fama de bater nos caras que vêm debater comigo. Quando eu me defrontei com Cristovam Buarque, eu fiquei com dó dele. Falei “esse cara é muito burrinho e não vou nem humilhá-lo. Vou passar a mão na cabeça dele para ele não se sentir mal”. E fiz isso. Era incapaz demais, gente. Olha a entrevista que ele deu hoje. Ele não passa num exame de ginásio se ele disser uma coisa dessa, dizer que o sistema do Escola sem Partido, que o aluno pode objetar o que o professor diz, foi adotado na União Soviética e na Alemanha Nazista. Eu digo, ora, vai lamber sabão velho burro.
    P - Sobre o Escola sem Partido. O senhor critica que isso seja encampado como mudança legislativa? O que defende, então?

    R - O Escola sem Partido se tornou objeto de discussão e o problema do qual ele trata sumiu da discussão. O problema é a dominação que os comunistas exercem na educação brasileira, dominação tirânica, onipresente, que proíbe qualquer objeção e esconde as ideias do opositor. Esconde mesmo. Qual o primeiro ponto? Reunir as provas e escrever um trabalho científico a respeito. Não começar propondo um projeto de lei absolutamente ridículo. Os fundadores do Escola sem Partido são meus amigos, pessoas pelas quais tenho muito respeito e carinho, mas é preciso ser um amador para tentar vencer uma guerra cultural com um projeto de lei. Uma guerra cultural se vence no campo cultural: chamando os caras para a briga, demonstrando que são uns bananas, uns coitados, calando a boca deles com argumento. Você conhece um tal de “Dicionário Crítico do Pensamento de Direita”? Eu escrevi um artigo a respeito. Os caras se propõem a apresentar um pensamento da direita. Quando você vai ler o dicionário, todos os pensadores importantes da direita estão ausentes e no lugar deles colocaram meia dúzia de nazistas absolutamente alucinados. Eles escondem as ideias do adversário e ainda colocam falsificação no lugar delas. É uma obra coletiva feita por 104 professores universitários subsidiados com dinheiro público. Para mim, todos esses são estelionatários. Para que você precisa de um projeto de lei para aplicar a lei existente? Claro que isso é um estelionato. Está enganando a pessoa. Está prometendo uma coisa e dando outra. Mas isso foi em 2000. Imagina o quanto essa dominação comunista se ampliou nesses anos. E na mídia, inclusive, na mídia aumentou muito, muito, muito. A mídia se tornou absolutamente intolerante com qualquer coisa que não venha da esquerda. E você mesma é testemunha disso. Você vê o que estão falando do Ernesto Araújo, do Bolsonaro. A hipótese de um governo de direita é inaceitável.

    P - A mídia foi e é criticada por setores da esquerda...

    R - Não, você está enganada. Foi criticada quando começou a noticiar os casos de corrupção. Objeção política e ideológica à esquerda a mídia jamais teve. Nada, nada, nada. Porém, quando um dos caras começa a roubar e denuncia, que é uma coisa que até na União Soviética acontecia, não é luta ideológica, meu Deus do céu, isso é disputa interna da própria esquerda. Aí é evidente que o esquerdista vai, se tem que xingar o outro esquerdista, vai xingar de quê? De direitista. Trótski não era xingado de agente do imperialismo por Stálin? E assim por diante. O Fidel Castro, quando mandava fuzilar um dos seus companheiros de revolução, dizia que era um agente do imperialismo. Quando eu fui contratado pelo O Globo, o Luiz Garcia, já falecido, deu uma entrevista confessando. “Naquela época, no Globo, tínhamos só colunistas de esquerda e estava dando na vista, então decidimos contratar um da direita, um”. Tinha cem de esquerda. Contrataram um da direita para tirar a má impressão. O que é isso aí? É manipulação. Ele disse isso quase 20 anos atrás. A esquerda tem o monopólio da mídia brasileira, o monopólio. Sempre tem um ou outro de direita moderada para tirar a má impressão. O que é isso? É manipulação. As organizações de mídia são todas organizações criminosas e sabem perfeitamente que o pessoal do PT está ligado com as Farc, com contrabando, e estão apoiando.

    P - Organizações de mídia são organizações criminosas?

    R - Você não entendeu ainda, é? O PT dirige, dirigiu durante anos, o Foro de São Paulo, em parceria com as Farc, que são organizações criminosas, que inoculam 200 toneladas de cocaína por ano no Brasil. E estavam os dois lá de mãozinhas dadas dirigindo o Foro de São Paulo, que é a coordenação estratégica da esquerda no continente, e a mídia apoiando e acobertando e escondendo a existência do Foro de São Paulo. Durante 16 anos todos – Estadão, Folha, Globo, Veja – esconderam a existência do Foro de São Paulo. Esconderam, quando não negaram E me chamavam de louco. Só pararam com isso quando, no terceiro congresso do PT, o próprio PT reconheceu que o Foro de São Paulo era coordenação estratégica do comunismo na América Latina...

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