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    11/07/2018 10h25 - Atualizado em 11/07/2018

    Bossa Nova comemora 60 anos

    No dia 10 de julho de 1958, João Gilberto entrou no estúdio da gravadora Odeon, no centro do Rio, para mudar a música brasileira de maneira indelével com apenas três minutos de som

    Roberta Pennafort - Especial para a Folha

    Julho de 2018. João Gilberto está diante da televisão, assistindo com entusiasmo aos jogos da Copa da Rússia, torcedor entusiasmado de futebol que é. A aposta é de Zuza Homem de Mello, jornalista, pesquisador musical e interlocutor do pai da Bossa Nova há mais de 40 anos.
     Em julho de 1958, vencido o Mundial da Suécia pela seleção de Pelé, Garrincha e Nilton Santos, o músico baiano teve outra ocupação: no dia 10 daquele mês, exatos 60 anos atrás, ele entrou no estúdio da gravadora Odeon, no centro do Rio, para mudar a música brasileira de maneira indelével com apenas três minutos de som.
     Era a gravação do compacto com Chega de Saudade e Bim Bom – o cultuado marco inicial da Bossa, tratado sobre beleza e acuidade, pela voz e o “violão dissonante” únicos de João, então com 27 anos recém-feitos. O 78 rpm foi lançado pouco depois de Canção do amor demais, de Elizeth Cardoso; este, o primeiro LP a conter a “batida diferente” de João, que tocou em duas faixas (a própria Chega de Saudade e Outra Vez) chamado por um Tom Jobim impressionado com seu “novo samba” (além do compositor das músicas, com Vinicius de Moraes, Tom era o produtor).
     Como a bossa, o compacto torna-se sexagenário sem ter desbotado, acredita João Donato, precursor de tudo e todos. “A bossa não envelheceu, vai ser admirada pelo mundo para sempre. É como Debussy, que morreu há cem anos. São só números”, diz o compositor, desde fevereiro de 2017 à frente de uma residência artística na Sala Baden Powell, em Copacabana, vertida em Casa da Bossa e com shows de bossa, jazz e MPB de alta qualidade.
     “Tem sido uma experiência trabalhosa, nesse mundo de teatros se acabando, mas muito prazerosa. Existe espaço para a bossa nova nesse tempo em que faltam ternura, amor e paz. O espaço idealizado por ela segue o ideal”.
     Zuza Homem de Mello lembra que, na visão de Tom, Desafinado, parceria com Newton Mendonça, é que continha os elementos formadores da bossa, e não a composição com Vinicius de Moraes à qual é comumente atribuída sua certidão de nascimento.
     “Tom considerava que Chega de Saudade tinha uma estrutura mais de choro que de samba, ao passo que Desafinado, gravada exatamente quatro meses depois, no dia 10 de novembro de 1958, já inova também no aspecto da letra”, conta Zuza, autor de Eis aqui os bossa nova (2008) e Copacabana: a trajetória do samba-canção (2017), entre outros livros sobre a música do Brasil.
      “Chega de Saudade não tem grande evolução em termos de letra. Foi uma composição feita para o álbum da Elizeth, de canções. Com Desafinado, deu-se o reboliço”, relembra. “Havia uma indução a achar que João era desafinado, tanto que ele hesitou a gravar. Era mesmo o que as pessoas sem percepção auditiva pensavam.”
     Sobre o João de hoje, de 87 anos e interditado pela filha, Bebel Gilberto, por problemas de saúde, Zuza não tem dúvidas: “Tenho notícias fidedignas de que ele está muito bem, em ótimo estado físico, cantando e tocando. A gente tem que ficar feliz, ele está fazendo o que gosta”.
     Na segunda leva de gravações de João, junto com Desafinado, ele interpretou Ho-bá-lá-lá, de sua autoria, como Bim Bom. Em janeiro e fevereiro de 1959, registraria Brigas, nunca mais, Lobo bobo, Saudade fez um samba, Maria ninguém, Rosa Morena, Morena boca de ouro, É luxo só e Aos pés da cruz, e estaria completo o seminal Chega de Saudade, LP que traz na capa um João enfadado e na contracapa um Tom derramado.
     As palavras do compositor-produtor entrariam para a história da Bossa: “Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele. Quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele”.
     Espalhado pelo mundo por seus bastiões e remanescentes, Donato, Roberto Menescal, Carlos Lyra e Marcos Valle, e por vozes femininas como Leny Andrade e Paula Morelenbaum, o repertório da bossa nova não está parado no tempo. “Canto canções que gravei nos meus primeiros discos (nos anos 1960), para diferentes plateias e com o mesmo frisson. Não dá nem para nomear. São eternas. Eu as reverencio hoje e daqui a 20 anos”, diz Leny, que já levou seu “scat singing” a 55 países.
     A exposição Bossa 60, passo a compasso, que o Espaço Cultural BNDES, no centro do Rio, abre ao público dia 18, cria experiências sonoras para os visitantes viajarem pelas transformações que a bossa trouxe em termos de ritmo, melodia, harmonia e interpretação.
     Fotos da época, de artistas fundamentais da bossa, como Johnny Alf, Nara Leão e Ronaldo Bôscoli, foram pinçadas dos acervos pessoais de Menescal, Lyra, Bebel Gilberto, Instituto Tom Jobim e outras instituições. A produtora é Valéria Machado Colela e o curador é o crítico musical Tárik de Souza.
      “A ideia foi dar um panorama o mais abrangente possível do movimento de 60 anos atrás, que mexeu nas estruturas da MPB, desvelando uma nova forma de tocar, cantar e compor”, explica Souza. “No quesito interpretação, há o contraste de gravações de músicas pelos cantores de antes e depois, como Aos pés da cruz, na gravação inicial de Orlando Silva, depois na de seu discípulo João Gilberto, e adiante na versão do jazzista Miles Davis. Trata-se do exemplo de um samba tradicional, que, a partir da ressignificação da interpretação bossa nova, acabou projetando-se no ambiente do jazz.”
     Para o curador, ainda há muito o que ser dito sobre a bossa. “A bossa já foi espanto e surpresa, moda e declínio. Mas ela tem uma profundidade estética que permite sempre novos mergulhos e alumbramentos. É um movimento estético apto a muitas releituras e apropriações. Tem a maleabilidade de atingir o rap (À procura da batida perfeita, de Marcelo D2) e sensibilizar um proto-punk farpado, como Iggy Pop, que gravou How insensitive, versão de Insensatez, a romântica canção de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Como cantou recentemente o Caetano Veloso, ‘a bossa nova é f...’”.

    Bossa Nova foi a trilha sonora de um país otimista e seguro de si

    Todo vento soprava a favor do Brasil naquele final de anos 1950. Governo progressista, conquistas esportivas no futebol, no boxe, no tênis, indústria automobilística nascente, a nova capital sendo construída no meio do imenso país. O gigante despertara. E, além de forte, parecia elegante, gentil e inteligente.
     Faltava uma trilha sonora à altura e ela ganhou forma naquele 10 de julho de 1958, 60 anos atrás, quando um cantor chamado João Gilberto gravou no estúdio da Odeon um compacto em 78 rotações. As canções eram Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) de um lado e Bim Bom, do próprio João, no outro. Esta é a certidão de nascimento da Bossa Nova, expressão artística que só receberia nome próprio tempos depois.
    Havia anos que jovens músicos no Rio de Janeiro buscavam novos caminhos para a música brasileira. Gostavam de jazz e ouviam discos importados sem cessar. Para citar um exemplo, Roberto Menescal (entre outros) era devoto de um álbum chamado Julie Is Her Name, gravado em 1955 com a deusa Julie London e sua voz de travesseiro acompanhada pelo guitarrista Barney Kessel e pelo baixista Ray Leatherwood.
    Julie interpretando Cry me a River é devastadora, mas os músicos só tinham ouvidos para os acordes dissonantes gerados pela guitarra de Kessel. O mapa da mina estava ali.
    Faltava o ritmo e a sua invenção remonta ao mito. De acordo com ele, um João Gilberto meio sem rumo teria se hospedado na casa de sua irmã, em Diamantina, e tocava violão o dia todo, sem parar. Tinha predileção por ensaiar no banheiro, o que causava transtorno na ordem da casa.
    Mas era lá, entre ladrilhos antigos, que João encontrava a ressonância ideal para seu violão e sua voz. Nesse ambiente pouco nobre nasceu a famosa “batida da Bossa Nova”, inventada por João Gilberto.
    Ao voltar para o Rio, João trouxe a base rítmica e interpretativa que serviria de leme à ainda oficialmente não nascida Bossa Nova. Em depoimento a Zuza Homem de Mello (no livro Eis Aqui os Bossa Nova), Baden Powell diz que é como se, de uma escola de samba inteira, João ficasse apenas com os tamborins.
    Só o osso, o diagrama, o essencial. São alterações harmônicas, rítmicas e do canto “pequeno”, associado mais à fala que ao dó de peito, que constroem a estrutura básica da Bossa Nova.
    Estabelecidas suas bases sólidas, a Bossa se desenvolveu com intérpretes e compositores geniais, entre os quais sobressai Tom Jobim. Foi trilha sonora de uma geração (ou mais de uma), ganhou mundo e hoje é mais tocada lá fora que aqui. Em seu denso ensaio João Gilberto e o Projeto Utópico da Bossa Nova, o crítico Lorenzo Mammì define a Bossa como “promessa de felicidade”. Caetano Veloso afirma que o Brasil ainda precisa merecer a Bossa Nova.
    Já se disse que uma música assim – sofisticada e simples ao mesmo tempo, elegante e inovadora, síntese de raízes nacionais e influências estrangeiras de alto nível (o jazz e a melhor música norte-americana, Villa-Lobos, Debussy e Ravel) – só poderia ter nascido em época otimista como a de Juscelino Kubitschek.
     

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