Uma série que não existe na deep web

Inspirada em caso real, comédia mostra a história de um jovem que vende drogas para reconquistar ex. Produção colore a tela com lisérgicos e esclarece temas

12/06/2019
Especial para a Folha
Leandro Nunes

Não é raro que a combinação do tema drogas ilícitas e juventude forme uma equação bem trágica, com elementos de autodestruição e cenas de overdose. É como se a realidade evocada na ficção aconselhasse, bem discretamente, o telespectador contra o uso dessas substâncias.
Quando 13 Reasons Why entrou no catálogo da Netflix, por exemplo, a série queria enfrentar o suicídio para além do rol de assuntos delicados em uma sociedade, considerando que é impossível não combater um inimigo sem antes nomeá-lo.
No caso de Como Vender Drogas Online (Rápido), comédia disponível na plataforma de streaming, a série alemã criada por Philipp Kässbohrer e Matthias Murmann começa perseguindo a melodramática e inofensiva rotina de estudantes de uma escola em Düsseldorf.
Na contramão de diversos países do mundo – para não falar do Brasil – em maio deste ano a Alemanha anunciou um investimento de 160 bilhões na educação, para universidades e centros de pesquisa. Talvez por isso, Moritz (Maximilian Mundt) e Lenny (Danilo Kamperidis) vivam em um oásis de pesquisa tecnológica ainda no ensino médio, tendo a oportunidade de experimentar o desenvolvimento de softwares e aplicativos e, durante feiras escolares, descobrir aplicações para o mercado e quem sabe, descobrir uma carreira.
Mas nada é tão simples assim. A dupla de nerds (ainda chamam assim os futuros chefes?) está prestes a apresentar um novo projeto: My Items. Trata-se de um plataforma que pretende congregar todos os objetos, baús, tesouros, armas, pontos de vida, armaduras e demais elementos compráveis em games online. O que acontece, geralmente, é que cada game já tem sua própria loja virtual para venda, compra e troca. A proposta de Moritz e Lenny é a mais plena e útil integração para os jogadores de todos os jogos. Mas eles não estão tão seguros assim.
Para quem não conhece a língua alemã, a série não perde tempo em narrativas lentas. Antes mergulha na velocidade de raciocínio que acompanha o virtual, como se as personagens não estivessem apartadas de um ambiente ou de outro. Para esta geração, redes sociais não são apenas avatares criados para relações no ambiente virtual. Em uma escola comum conectada à internet, essas plataformas de fotos e curtidas são capazes de transformar o status de um nerd ou destruir a carreira de um valentão no que se chama vida real. Em uma era de tanta exposição, é nas mensagens privadas que Moritz vai descobrir como ultrapassar suas dificuldades.
A primeira delas é que a então namorada Lisa Kovak (Anna Lena Klenke) acaba de voltar de um intercâmbio nos EUA e após um ano sente que precisa rever a nova-antiga vida com os colegas da escola e seu relacionamento com Moritz. O garoto tão rápido em construir códigos sentirá o baque de um término, mas a série ainda nem começou.
Aqui Moritz pode se comportar como muitos rapazes que não entendem um ‘não’ dito pela garota. Apesar de considerar o carinho que sente por ele, Lisa pede para que cada um siga sua vida e é quando entra Dan (Damian Hardung), o novo affair de Lisa. Bonito, extrovertido, atlético e amante da capoeira, o jovem faz frente ao cérebro de nerd de Moritz. Ao descobrir que o rival comercializa ecstasy na comunidade, o ex de Lisa vai criar uma estratégia para reconquistar a garota: se você não pode com eles, seja melhor que eles.
Com seis episódios que não ultrapassam os 30 minutos, Como Vender Drogas Online (Rápido) reconstituí o turbilhão que é a mente dessa turma. Seja a facilidade de se produzir qualquer objeto em uma impressora 3D na escola ou pedalar para a casa depois da aula, todas essas paisagens podem ser redecoradas com um pouco de imaginação, como se fossem os desafios de um videogame.