"PéPequeno" fisga todas as idades

Com visual incrementado, animação usa recursos da computação gráfica para contar uma história atraente e sofisticada

11/10/2018
Especial para a Folha
Julio Maria

“PéPequeno”, a animação dirigida por Karey Kirkpatrick, veterano roteirista de filmes do gênero, como James e o Pêssego Gigante, A fuga das galinhas e Os sem-floresta, investe declaradamente nas mensagens, nada veladas, em prol da liberdade e independência de pensamento e da convivência entre diferentes, mesmo que não falem a mesma língua. O filme circula no Brasil com maioria de cópias dubladas mas há pelo menos 18 cópias legendadas - trazendo as vozes de Channing Tatum, LeBron James, Zendaya e Danny DeVito.
 Para abordar tudo isso, recorre-se a uma ambientação numa alta montanha nevada, onde subsiste, aparentemente há séculos, uma sociedade ordeira e pacata de iétis, amparada em conceitos literalmente gravados em pedra – tanto que seu líder é o Guardião da Pedra.
 Invertendo a velha lenda da busca de um mítico Pé Grande, aqui o mito que a todos assusta é a existência dos pés pequenos – ou seja, os humanos. As pedras sagradas garantem que eles não existem, mas a queda de um avião permite a Migo, promissor jovem da comunidade, comprovar com os próprios olhos a existência de um deles, que rapidamente some de vista com seu paraquedas.
 O relato desta visão acaba queimando o filme de Migo, que já se preparava para assumir o posto de seu pai, Dorgle, o “cabeceador” de um gongo mítico, ao qual se atribui a distribuição da luz diária por toda a comunidade. Contestado pelo Guardião, Migo é banido da cidade e acaba descobrindo que há outros jovens que duvidam da verdade das pedras, começando pela própria filha do Guardião, Meechee.
 Decidido a descobrir o que há, afinal, abaixo de sua montanha, Migo acaba descendo abaixo das nuvens que a cobrem permanentemente – e são geradas ali mesmo –e vai parar numa cidadezinha humana. Aí é que se cruzam os destinos dele e de Percy, um ansioso apresentador de um programa sobre animais e natureza, desesperadamente precisando de um grande furo para aumentar sua audiência nas redes.
 Deste encontro inusitado, o filme extrai seus melhores momentos de humor, ao mostrar que os dois não entendem as línguas um do outro e tomam atitudes que desconcertam e/ou apavoram reciprocamente.
 Não se trata de uma animação com grandes ousadias técnicas, visuais, mas os temas progressistas do enredo sem dúvida tornam o filme merecedor de atenção – por mais que a evidente tentativa de dialogar com plateias de várias idades – o famoso “filme para toda a família” – possa, afinal, comprometer a compreensão e/ou o proveito de algumas faixas etárias.