"CHOQUE DE ÉTICA"

08/02/2014

Rodrigo Pacheco foi eleito como o mais jovem advogado a ocupar uma vaga no conselho federal. / Arquivo
Rodrigo Pacheco foi eleito como o mais jovem advogado a ocupar uma vaga no conselho federal. / Arquivo

Folha da Manhã

Designado pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para encabeçar em Minas Gerais o “Eleições Limpas”, em parceria com o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), o advogado passense Rodrigo Pacheco quer aproveitar o projeto para ampliar a discussão sobre questões de interesse do cidadão e promover mudanças. Eleito como o mais jovem advogado a ocupar uma vaga no conselho federal, Pacheco espera discutir com a sociedade, ao levar o movimento para as cidades mineiras, problemas e soluções para o Estado.

“Aprimorar o processo eleitoral e extirpar práticas viciadas nas eleições é fundamental”, afirma.
 À frente do escritório Maurício Campos & Pacheco Sociedade de Advogados, ao lado do ex-secretário de Estado de Defesa Social, Maurício Campos Júnior, o criminalista faz críticas à tendência no país de se transferir para o Poder Judiciário questões que deveriam ser discutidas e resolvidas pelos demais poderes constituídos. Segundo ele, esse processo de “judicialização” em curso também reflete o descrédito da sociedade com a classe política. “Achar que tudo se resolve no Judiciário é um engano, é o reconhecimento da incompetência e descrédito dos outros poderes”, ressalta.

P - Como o segundo maior colégio eleitoral do país, Minas deve ser o protagonista do projeto Eleições Limpas?
R -
A importância de Minas Gerais não é só pelas dimensões geográficas e densidade populacional. Minas se destaca no cenário nacional por ser tradicionalmente celeiro de ideias progressistas e valores éticos. Por isso, o projeto Eleições Limpas passa necessariamente pelo nosso Estado. Aprimorar o processo eleitoral e extirpar práticas viciadas nas eleições é fundamental para o país e os mineiros sabem disso.

P - Assim como a OAB fez, a sociedade organizada também deve ajudar a pautar as discussões no Congresso em busca de avanços e reformas?
R -
Sem dúvida alguma. A OAB se ocupa muito disso, assim como outras entidades igualmente respeitadas. Mas sem a mobilização da sociedade civil organizada nada evolui concretamente. E essa mobilização significa fiscalizar, dar ideias, manifestar publicamente, indignar-se com o que está errado, exigir de seu representante que tome as atitudes que representem o anseio de seu eleitorado.

P - Esses movimentos nas ruas, de alguma forma, levam o cidadão a pensar que as mudanças são necessárias?
R -
Não são os movimentos que levam o cidadão a pensar que as mudanças são necessárias. Na verdade, os movimentos são consequência daquilo que o cidadão sabe, vivencia e quer mudar. O “ir para a rua” significou muito para o Brasil em 2013. E o impressionante é que as principais pretensões foram simples e básicas. Políticos tinham que ter vergonha de ver uma mobilização pedindo transporte, saúde e educação públicos de qualidade. Isso é uma obrigação evidente do Estado, que tem dinheiro de sobra para melhorar essas questões estruturais básicas. Basta entender onde está o gargalo das finanças públicas.

P - Os poderes estão conseguindo assimilar as demandas que surgiram das ruas com as manifestações?
R -
Houve um amadurecimento, mais pelo receio de reação popular se não houver as mudanças do que propriamente por um golpe de consciência dos representantes dos poderes em geral. Melhor seria que houvesse um choque de ética, civilidade e responsabilidade com a coisa pública. Isso seria mais duradouro e melhor para se construir verdadeiramente uma nação.

P - Há um exagero na “judicialização” de algumas discussões no país?
R -
Sim. Achar que tudo se resolve no Poder Judiciário é um grande engano. A Justiça está sobrecarregada e não pode servir de oráculo para tudo. Transferir para a seara judicial todas as questões do país é o reconhecimento da incompetência e descrédito dos outros poderes. Na minha concepção, o ideal de República é bem educar o povo, escolher representantes políticos de qualidade e deixá-los trabalhar, com autoridade, sem autoritarismo. Ao Poder Judiciário devem ser reservadas questões que realmente lhe competem, respeitando a autonomia e decisão de outros poderes.

P - Isso demonstra falta de representatividade, por exemplo, no Congresso?
R -
Isso demonstra o descrédito da sociedade com a classe política, no que se inclui o Congresso. Seria muito importante que o cidadão olhasse para um Ministro do Supremo e para um senador da República, para um juiz de Direito e um prefeito municipal e pensasse: eu posso confiar neles igualmente? Infelizmente, no Brasil não há esse pé de igualdade. E tenho que reconhecer: o Estado escolhe bem melhor os juízes do que o povo escolhe os políticos.

P - Aprimorar as práticas eleitorais e a escolha dos candidatos se torna, então, cada vez mais necessário.
R -
O povo tem “a faca e queijo na mão”. O poder do voto. Aprimorar o processo de escolha é importantíssimo. Pesquisar a vida do candidato, se ele é político profissional ou não, se é ficha limpa, as ideias que ele tem. E cobrar resultados. Precisamos dos políticos. Mas eles precisam muito de nós também.