Opinião: As primeiras baixas

30 de março de 2020

Com a pandemia do Coronavírus (Covid-19), e no afã de seguir recomendações médicas de caráter profilático, vi-me na condição de entrar em quarentena. O tal do isolamento social.
Não me engajei na campanha por mero ato respeitoso de civismo, obediência às normas sociais. Assim o fiz e principalmente, para benefício próprio e para conter a expansão do vírus e seus males para os irmãos deste planeta terra, sabendo que cada um tem que fazer a sua parte.
E um sessentão que se preze, meu caso específico, tem mais é que encarar a realidade e enfileirar-se na ala dos que desejam viver uma vida na expressão plena da dignidade. Afinal, nada sabemos sobre o bicho, tamanho, tentáculos, feiúra, a forma como age etc.
Conhecimento notório é que estamos passando por mais um desafio na história universal. E nada sabemos do inimigo que ainda se esconde de imprescindíveis e investigativas lentes de pesquisa dos cientistas mundiais. Por quanto tempo, ninguém sabe. Se para ficar em casa, cumpro ordens, sem nenhuma resistência.
Entre as cidades de Formiga e Passos, com as quais mantenho ligações há 34 anos (dupla residência, portanto), optei por isolar-me na proteção do Senhor dos Passos, onde disponho de uma pequena área verde (belas árvores, pomar, canteiros de verduras e legumes) e um galinheiro, no qual se coletam ovos para a subsistência do lar.
Conforme previsão sombria na escala social, sabíamos de antemão que haveria baixas com a incidência do Coronavírus, designação pela OMS (Organização Mundial de Saúde) de Covid-19.
Entretanto, fiquei abalado e não menos triste com as nove primeiras baixas, bem à frente do meu nariz. Dispensável dizer a desolação. Por atitudes estranhas ao meu empenho e interesse, fiquei sem nove dos dezoito galináceos, entre poedeiras e um galo.
Ocorrência na madrugada de domingo último, sem prévio aviso e nenhum consentimento, menos ainda por ato de desobediência à profilaxia, galinhas gordas, e um galo Índio, foram subtraídos do seu habitat, educadamente recolhidos em seus respectivos lugares no poleiro.
Não se destinavam a objeto de sacrifício. Positivamente, não. Tão carinhosas eram. Cada qual atendia pelo nome.
Assim tínhamos a Alface, a Chuchu, a Branquinha, a Estrela, a Gargantilha, a Esbelta, a Florzinha, entre outros nomes. Ao galo, covardemente surrupiado, foi-lhe conferida a designação de Major Olimpo, sem nenhuma alusão negativa ao senador do PSL-SP, a quem tenho apreço. Não pelo que armou com o governador de São Paulo, João Dória (PSDB-SP), por ocasião de eventos político-sociais.
Já na madrugada de 27 de março próximo passado, os gatunos retornaram ao pequeno sítio e, direto ao galinheiro, levaram mais oito cabeças, deixando apenas um franguinho carijó, a quem chamamos de Abduzido, já que é dado a se esconder quando o chamam. Abduzido ficou.
Pergunta que a mim faço: os galináceos incomodavam? Objetivamente, não. Embelezavam o quintal. E a ponto de torcida e alegria, as poedeiras eram a saudação irrequieta e buliçosa quando da operação natural da entrega de ovos. Trabalho, a que reputo, e não há quem duvide: duro de doer.
E assim foi. Ou melhor, foram. Os mais belos espécimes dos galináceos se foram para locais incertos e não sabidos – quiçá para estranhas panelas. Logo as produtoras de bens essenciais à vida da classe de idosos, regularmente colhedores de ovos para gemadas, mexidos ou, então, ovos meramente esquentados para peitos arfantes e combalidos pelo tempo.
E não é que foram exatamente para os braços não permitidos de terceiros, também conhecidos por “amigos do alheio?”. Em nível de consolo, foram-se os anéis e ficaram os dedos.
Já era de esperar os efeitos colaterais do impasse a que estamos todos inevitavelmente submetidos. Mas não tão de perto e de maneira tão desumana e cruel.
Valor monetário? Longe disso. O carinho, a estima, o apreço sem preço, alegria lúdica de atividades para aposentados.
Fica o registro a servir de alerta para os menos cuidadosos. Larápios entram na horta e, de forma misteriosa, tal qual o Corona (Covid-19), assaltam e subtraem, sem olhar a quem.
O fato em si me deixa mal, já que escolhi a ocupação de um pequeno sítio para fazer-me companhia nesse duro transe, que é essa quarentena a que devo me submeter.
E outra: e é desse hospitaleiro pedaço de terra que pretendo extrair parte do básico para a subsistência nesses dias atormentados e difíceis.
Só me esqueci de avisar aos navegantes, e a tantos quantos: por livre e espontânea vontade, sou dos que contribuem com cestas-básicas e sistematicamente ajudo no campo social aos menos favorecidos pela sorte.
A maneira usada foi abusiva e desproporcional. Magoou o cenário de quem ama a natureza e por ela luta com todas as suas forças.
No entanto, estabelece-se o alerta de público. E, por favor, deixem minhas amigas em paz! Elas têm nomes, residência fixa e não se encontram disponíveis para o mercado livre, menos ainda para a clandestinidade da bandidagem maluca e desenfreada.
Que os alienados da malandragem vão baixar em outro centro, de preferência em setores cujo policiamento ostensivo se mostre deveras eficaz no entrave e impedimento das malhas do crime.
Pergunta que se faz no campo da política social. Com o Coronavírus da China, o comunismo veio junto?