Dia a Dia

Dia a Dia: Águas de Março

25 de março de 2020

As ”águas de março” trazem as “enchentes das goiabas”! Esta frase faz parte da cultura popular brasileira e do vocabulário de boa parte do povo, principalmente o pessoal do interior de nosso imenso Estado de Minas Gerais. Quer dizer que traz esperança de muita chuva, com as águas de março fechando o verão.
No mês de Março, nas áreas rurais, em minha infância, era comum os pés de goiabas estarem carregados, e as frutas caírem por conta das chuvas mais fortes pelos pastos afora e serem devoradas pelos animais. Aí vem a lembrança de quando eu, menino, me reunia em turmas com embornais nos ombros, e saíamos a procura das goiabas pelos campos perto do bairro. Nesta época existiam muitas goiabeiras pelos campos afora, daquelas bem altas, antigas, e que davam muitas goiabas tanto vermelhas como branca. Era só subir nos galhos fortes mais altos e sacudir, tantas eram as goiabas que caíam, que coalhavam o chão! Depois de comer bastante goiaba, era só escolher as mais bonitas e grandes, encher os embornais de goiabas de preferência, (as vermelhas, para mim! ) para dar uma bonita cor numa goiabada lisa de cortar ou feita de cascão. Chagava em casa e, todos da família ajudavam no processo de uma limpeza geral das goiabas: lavar muito bem, tirar alguns defeitos da casca, partir no meio, com a colher tirar o miolo (semente), reparar bem se não ficou bicho na polpa, picar e lavar os pedaços um por um. Pegar o tacho, limpar com água e limão, (assim fazia minha tia que morava em nossa casa) colocar o tacho na trempe do velho fogão a lenha já com o fogo aceso, misturar a polpa com a quantia certa de açúcar, não parar de mexer com uma grande colher de pau, e acompanhar todo o processo do feitio até chegar ao ponto de uma gostosa goiabada lisa, ou cascão, que só minha tia Nina sabia fazer. E nós, os irmãos mais novos, ficávamos ali a espera dela tirar, antes da goiabada ficar no ponto, um pouco mais mole para podermos comer na colher ou lambuzar num pão!
Havia em quase todas as casas um quintal enorme com muitos pés de frutas, e como era bom pegar e comer frutas direto do pé como: manga, jabuticaba, goiaba, pitanga, amora, laranja e mexerica.
E assim foi-se o tempo de minha infância, e junto foi-se também a era das vendas e empórios de secos e molhados, onde se comprava e tudo era marcado em cadernetas, não se conhecia a palavra inflação, e muitas das contas eram pagas anualmente. Nossa cidade de Passos tinha pouco mais de 30 mil habitantes, o povo vivia com mais tranquilidade e sempre arrumava tempo para uma visita aos vizinhos, amigos e parentes.

E nas enchentes das goiabas, famílias faziam goiabadas para comer o ano todo, que eram guardadas em uma caixa de madeira com tampa de puxar!

Em tempo: sabemos que os dias estão difíceis. Estamos vivendo uma crise que só vamos superar ou amenizar acatando os conselhos dos profissionais da saúde. E principalmente orar pedindo a Deus que nos ilumine e nos proteja, nos dê serenidade para vencer a batalha contra esse inimigo traiçoeiro. Vamos ficar em casa, conversar com amigos e parentes apenas pelo telefone ou internet. E eu indico também sempre uma boa leitura!
Até a próxima semana!